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quarta-feira, outubro 28, 2015

angústia de mulher

Abrir os olhos, querer fechar
Dor nos olhos,
devo estar com aparência de cansada
a filhote pega no meu  braço,
sinto cheiro de filha, ela sente cheiro de mãe
coloco o despertador pra mais 5, 10, 20 minutos

No limite do tempo, coloco a fantasia na criança
Halloween é o caralho, viva a cultura nacional
Viva a globalização!
Truques ou travessuras,
Balas e sustos

Ela quer ir de mulher das cavernas
Todas as mulheres das cavernas eram bruxas
"A saia está curta, tem que botar um shortinho." - eu digo
Não quero - ela diz
Relatos de assédios sexuais pipocam
Eu botei esta criança no mundo, eu cuido dela.

Ela tira o shortinho na frente do faxineiro
De tão tímido e bronco, não sei o que ele pensa.
Não à idéia de pudor ou repressão, sim ao respeito
respeito ao próprio corpo:
"Isto que está aqui é seu, só você pode tocar, só você pode proteger e cuidar... este é o seu corpo..."

Preciso depilar, me imagino índia, sem precisar deste martírio mensal,
A moça que trabalha no instituto de depilação me diz que se todas fossem índias, ela estaria implantando cabelos...
Concordo.

Brasileira com falta de auto-estima.
Brasileira com mania de ficar loira.
Somos loiras falsas.
Somos medíocres.

Angústia no olhar
o filho da moça que trabalha lá em casa morreu aos 18 anos
Acabou o papel higiênico.
Falta um verdinho pro almoço.
Saem camadas de gordura preta das molduras dos quadros

Não tenho dinheiro pra ter um lugar destes.

Falta o presente da amiguinha
 tic tac tic tac tic tac
Falta a diária das meninas
Carro tá preso na garagem pelo carro do vizinho, trancado, sem chave
tic tac tic tac tic tac
Ela hoje vai pro pai
Não falamos no trajeto
A piscina ficou limpa
O limoeiro tá morrendo
Sobram peles
Falta comida no corpo
tic tac tic tac
Somos descartáveis
tic tac tic tac
Elza Soares
mente corpo
tic tac tic tac
não
sim
sim
não
Cabelos secos
tic
teco
tico teco


eu não desisto
de mim



segunda-feira, junho 22, 2015

Roma anagrama de Amor

BEL RECITA UMA POESIA
Então, hoje é domingo, vamos ver um filme?

Ele queria ver "gente morrendo".
"Gente morrendo", ele repetia...
e eu pensava na frase do Nelson Rodrigues que dizia que é no palco que temos que ver assassinatos e putarias para satisfazer nossos instintos mais selvagens...

E tinha lido no jornal a frase do Anibal, que se matou com um veneno que carregava em seu anel, deixando uma carta assim:
"Finalmente livrarei os romanos da minha ansiedade"

E eu ansiosa.

Quer dizer, quem não tem acesso à indústria farmacêutica contemporânea
ou à algum tipo de arte catártica sai por aí extravazando os instintos mais selvagens como?

Ligamos o filme.
E foi me dando o mesmo desejo que ele...ver "gente morrendo"...
De repente me senti como se estivesse vendo um musical.
Sabe um musical onde as cenas são só passagens entre uma música coreografada e outra.
Pois, eu estava assim, querendo que as cenas de papinho passassem rápido para ver mais " gente morrendo"...

E aquilo me deu uma fome louca
e eu gritava e me encolhia...
Nossa!Foi catártico...

Que loucura é esta, meu Deus?
E ele fala que é louco pela história de Roma...
Pelas matanças
Pelas estratégias de Guerra
Me explicou  a estratégia do cartaginês

Anibal ganhou dos romanos que tinham um exército de 83 mil homens,matando todos eles
e ele tinha aproximadamente a metade de homens apenas.
ele deixou que os romanos avançassem
e os cercou por todos os lados...

A frase: "Anibal nos portões" ainda é usada na educação das crianças na Itália...

Quem já foi imperador sabe.
Até tu, Brutus?
Quem já foi imperador tem medo de ser traído por seu maior amor.

Eu não sei quem sou nesta história,mas
Roma me dominou e eu morri.
Cercada por todos os lados.

O anagrama de Roma é Amor. O Amor me matou e meu império foi todo dominado.
Mas "livrarei os romanos da minha ansiedade",
tomando ansiolíticos e esquecendo a tal lenda do anel.

Fechem os portões.
A cidade antes aberta agora está em chamas.

Voltarei à Grécia como escrava de um poeta carioca.
Escravas na Grécia não são mulheres
São objetos
Objetos não amam

Dentro de mim apenas uma negra que sabe sambar para levar a vida.

Deixarei de lado as invasões norte-americanas ao meu subconsciente
A fixação no tal anel...
A idéia de amor romântica dos filmes holywoodianos dos anos 50...
O casamento...
Querer crescer os peitos com leite romano...
Ter pequenos imperadores em casa...

Eu poderia me matar por um anel de casamento e deixar uma carta dizendo: 
“ finalmente livrarei os amores da minha ansiedade”

ou

sobreviver comendo migalhas de tapioca e ficar feliz em ter uma filha de nome Manu
Nós somos apenas nobres plebéias cercadas de afeto por todos os lados.

E noutra vida fui enfermeira de guerra.
Adoro cuidar dos outros
Só preciso aprender a cuidar mais de mim
e cuidar de mim significa cuidar da minha filha também

e criar.