terça-feira, agosto 13, 2019

My Man


Tenho consciência do seu feitiço 
e fujo dele. 
Mas você, 
bruxo, 
sabe dominar 
com as palavras ao pé do ouvido, 
sabe o efeito que suscita, 
atraindo-me para o suscenso 
do neologismo rosiano  
( mistura de suspense - incerteza, hesitação, ansiedade - com sucesso - triunfo, bom êxito ). 
Um pé na frente outro atrás, 
ou esta terceira margem do Rio. 

Não venho aqui por desejo só, 
venho inebriada na ilusão do conceito, 
na visão de um beijo que você não me dá, 
fazendo-me desprezar toda e qualquer 
sensação oferecida, 
por preferir este sentimento de alma apaixonada, 
fazendo-me gozar do segredo 

de ser sua. 

E me vejo chorando como mulher. 
Cadê o sol?

segunda-feira, julho 22, 2019

numa madrugada
de sinos que anunciam mortos
no pesadelo da criança

ela vem pra cama da mãe

numa estrada onde
nos sonhos a mãe dá carona a outros mortos

e então não dorme mais

uma decisão é tomada
o sol anuncia chegada
no peito uma facada

dor

pra onde ir a não ser longe daqui?

quinta-feira, julho 04, 2019

Somos errantes

poetas contemporâneos

que trabalham o neocortex

para evitar mimimi nhamnhamnham te quero pra sempre de amor

brasileiro tá mais efêmero que nunca


terça-feira, julho 02, 2019

Eu, estrangeira de mim

Quem somos nós, brasileiros?
Ou melhor: Quem sou eu?
Somos estupefatos e reprimidos.
Índios ( dizimados e pouco conhecidos por nós mesmos ) nativos de um país com uma flora e uma fauna exuberantes; africanos  ( marcados por uma sociedade escravocrata ) - dotados musicalmente de uma forma milagrosa de encarar a vida, compreendendo o sagrado também em bater os pés acordando os espíritos ancestrais; europeus - nos hábitos, nas técnicas, nas origens de um país colonizado; americanos - nas projeções; sincréticos, miscigenados nos mitos e ritos... Nos conhecemos?
E eu? Sou aquela que cresceu 4 meses por ano semi-nua, sem sapatos, brincando de taco na terra batida, coberta do sal da lagoa escaldante, capaz de pescar uma tainha com as mãos, sambando no pé, muito mais que a loira de maria chiquinha, tênis nike e blusa do mickey, comendo coxinha de galinha na tijuca.
Certa vez fui a uma mãe de santo : "você vê” - ela me falou. Recorto o mundo em cenas e sugiro narrativas na poesia do ordinário. Quem vive conta. Quem vê pinta. A realidade se transforma no meu trabalho. Confio no que vejo, mesmo que seja ilusão ou drama. O que destacar? O que não é comum neste excesso? Qual mistério a ser desvendado? 
O que importa realmente aqui é ser feliz na urgência. A alegria surge do desespero em transformar o descaso social em algo vital.
É um dia a dia pesado, violento e também belo e frágil, nesta natureza abundante.

quinta-feira, junho 13, 2019

desilusão

Às voluntárias bandeirolas senhoras de junho
esforçadas em andar 1 quarteirão
passo
nem pensam que os voluntários eram escravos forçados a lutar
pela pátria em troca de alforria.
Uma luz faz olhar pra cima
e ver que a árvore não continua mais.

a mão dele no rosto dela
o rosto dele na mão dela
a mão dela na mão dele
a mão dele na mão dela
ele com ela com ele com ela com ele com ela com ele com ela

eu, o culote e o computador
aprendemos que o amor
apesar de pés enroscados no de alguém que ainda acredita
não é a dois

este amor aí é pacto
de interesse
o outro faz o universo girar

bons os ingênuos tempos em que se buscava um coração para bater junto

hoje é só céu, vida e morte e ar
nem mais vaidade

e lá vai a idade.

sexta-feira, maio 31, 2019

vestígio de mim

Como quem procura pistas
pegadas
nas células
nos poros
dos dedos
nas retinas
dos olhos
nos neurônios
que faíscam
algo que explique
esta trajetória

Passam impressões,
biometricamente desfazendo nós,
entre órgão de músculo involuntário irracional,
outro que diz se estou passando mal
a boca
e o canal que sustenta todo sedimento de memória

aguardo o sinal

incenso telepatia minuto a minuto e desperdiço
a intelectualidade adquirida
ex cola da vida
não me disse a resposta
e ainda me deixou soltar as rédeas

lupa
chapéu de Sherlock Holmes
e nada é mais elementar

outro dia

sigo a busca
imagens, escritos, um recado talvez
que me faça finalmente compreender o porquê
de ser vivo de vez


terça-feira, maio 28, 2019

tudo

Era uma vez uma mulher ambiciosa
que se tornou mãe

esquizofrenesi


Me deixou num total esquizo frenesi.
Um frenesi esquisito

ou

(mais bela)
freneticamente exquisite

uma parte ainda eu
outra parte eterno sonho meu

uma parte eu
outra parte se fudeu



sexta-feira, março 15, 2019

Vermelho

As caras dos idosos militares
seus corpos e andares exibicionistas
ss senhoras e seus shortinhos
e os sorrisos nos rostos...

O que é necessário para satisfazer uma vida?

Dominar as massas com uma moral rígida?
Tônicos músculos involuntários?
Viver à mercê de uma tevê que compartilha receitas e trivialidades?

Tô de vermelho.
Aqui os vermelhos estão nas flores, não nas pessoas.
Seja sexy, vulgar, amoroso,
Devassa ou Coca-Cola,
Flamengo ou America,
não vejo ninguém de vermelho nesta multidão ariana.

São namorados no estilo anos 50 em pleno 2018.
De vermelho só eu.
Woman in Red.
Saia, mas não esvoaçante.
Penso sim em sair e nunca mais entrar.

Até onde vai uma ideologia política?
Até onde vai o culto ao corpo?

Problemas de coluna só cessam quando se cuida da mente e do espírito.

O gosto por livros da minha filha me apazigua.
A vontade de viver dela, o jeito que ela me olha, isto me satisfaz.

Onde coloco o amor Ágape, co-sanguíneo, por aquela tia e sua odiosa família?
Na casa deles tinha um casco de tartaruga gigante.
O meu tio era marinheiro? Ele matou a tartaruga?Acho que ele tinha uma arma...

Neste bonde chamado Desejo, os estivadores são os machos-alfa.
Você e o personagem que você sonhava que eu fosse
ou o que melhor se encaixava naquela fotografia.
O homem alto moreno, a mulher loira baixinha, e atrás o mar.
Ouro de mina.
Que força descomunal se livrar deste fardo sem perversão.

Acusações de psicopatia de um psicoholic psicoadicto
"Você confunde gozo com afeto" - ele disse -
aquele psicoanalítico, psicomacho, psicovirtual, psicomachine
" Você é poeta " -
me esporrou poesia drummoniana
me ofereceu um baixo eletrônico
...
e me cobrou aluguel.

Um homem diz que ser de esquerda é ser solidário.
Se a mulher tem dinheiro e pai de direita,
mesmo que esteja solitária na luta,
não precisa de um abraço.
Abraço, carinho, jantar e conversa de mulher rica com pai de direita,
para o machoesquerdopata,
é assédio.
Porque independente do nível de compaixão e humanidade que se tenha,
para um machista,
mulher quando conversa com homem, quer transar,
porque mulher,
para o machista,
não pensa.

Aí percebemos o quanto importa um feminismo,
um afetuoso carinho feminino gerador de pensamentos,
um afetuoso caminho feminino propulsor de momentos.

a lógica do mundo tá tão torta,
que afeto é crime
e dinheiro é ordem.

e sempre foi assim.
e assim nem sempre será.


terça-feira, setembro 04, 2018

quando cai a ficha da discreta manipulação afetiva

E então a liberdade de pensar o que quer que venha à mente
(como se deve ser ao nascer)
e expressar sem medo.

Um homem bonito
e o sonho da menina formada em moldes encantados,
de alienação de auto-estima,
que se alimenta apenas se dá a mão ( o braço, o pé...)
a um homem
bonito

Um mulher cuja beleza serviria apenas para seduzir e passar a servir
um homem
bonito
assim se educou um inconsciente
feminino.
assim se reprimiu uma potência
bonita.

A mulher pensa, fala,
trabalha e ganha por isto,
A mulher é e ele indaga:
Você sabe fazer bolo? Cadê meu almoço? Por que a louça está suja? Com quem, onde você estava?
Ele afirma: minha mãe é perfeita, como quem diz, se você for como ela e eu quiser casar, você aceita?

E então, a liberdade de ser, sem precisar se agredir
Ver beleza no próprio pensar, escrever, falar, sentir.
Dar a mão à criança,
abraçar a menina,
e fazê-la acreditar que a beleza é intrinsecamente dela,
A beleza daquela mulher nasceu e cresceu com ela.

Os outros olham
e ela quer mostrar.
Os outros olham
e ele quer aparecer.
Forjam tanta felicidade,
que acabam por acreditar
naquele viver.

E então, ela indaga:
O que é ser bonito?
O que é ser ?
Onde se escolhe ver beleza? E o que é amar ?

E então, ela capta a imagem:
Um homem bonito que só sabe ser só menino só.
Um homem bonito que só encara só menina só.
Um homem feio que só namora menina bonita, frágil, que sonha.
E, se a fragilidade dela aparece,
ou a mulher se desvela,
pronto, comprovada a teoria:
ela não é a boneca de chumbo ou sua mãe e não será ele o escolhido de suposta compaixão.
Ele é desleal consigo, não sabe amar quem o ama, desconfia dela, se entrega à vaidade como meta.
Foge.
A testa.
Volta.
A culpa.
Vai.
Ele diz:
ela é maluca.

Ela intui:
Amor que deixa morrer.
Amor que se deixa morrer.
Amor que não considera, que é vivido porque leva a algum lugar.
Amor com finalidade.
Amor que posa e suga, que dorme sem abraço, beija e transa na ilusão...
Amor que desconhece o amor
não é amor.

Amor que menospreza o amor,
que joga fora,
despeja quando não mais deseja,
tratando ser vivo como inanimado...
não é amor.

E então, ela lembra, finalmente, o que é a liberdade de amar

a liberdade de ser, sentir, pensar,

sem que amar e existir ( por si só )

seja um crime,
um penar.







terça-feira, junho 19, 2018

profundo e puro

Um vazio que gira,
um buraco lá em cima
de calor que não traz passado do futuro
na onda eletromagnética

não força a barra, não tem clima
esquece casa, tudo
Tem gente querendo colo ali na esquina.
Ser feliz tem ética?

Quando a menina
às claras perde a fé no "eu juro"
sem ver estrelas no escuro, galáctica

sejamos sós, nadando
homens achando que o que vale é o pau deles, duro
mulheres pensando que o propósito é a labuta delas, perjúrio




sábado, junho 16, 2018

separação


BEL - Projeto que não deu certo. 
Ainda existe um lugar onde se queira dormir, abraçar 
alguém? 
Afeta nossa capacidade de amar.
e dizemos amém.
Afeta nossa necessidade de amar.
e não dizemos mais
amém.
BERNARDO - Os travesseiros trincheiras 
nos defendem do descanso
Quem quer algo além? 
A poeira fede lá fora 
e a gente aqui com medo? 
Não cabe.
BEL - Cabe. 
Almas dominadas pela higienização das relações! 
Te falta tempo? Pra mim sobra! 
Sobra tempo 
Time is no money e ainda quero mais! 
Não estou desempregada , escolho afeto, desarraigada.
BERNARDO - Na casa da minha mãe tenho afeto.
BEL - Que sorte, achei que era só teto.
BERNARDO - Se cuida!
BEL - Odeio isto, me atinge, me rói, me deixa muda.
BERNARDO - É sincero.
BEL - Mas não o que espero.
BERNARDO - Não sou eu quem vai salvar sua primeira infância perdida.
BEL - Desespero-me com sua ida. Cessar sonhar.
BERNARDO - Desta preocupação consegui me livrar. Seu peso. Quanto penar.
BEL -  Egoísta. 
BERNARDO - Privilégio ser. 
Não procuro nos outros solução 
tenho poder.
Você manipula
mas não a mim.
BEL - Passar bem. Seu nome é repressão.
Vai lá, circula, faz pirlimpimpim.
BERNARDO - Seu nome é agressão.
Fora de mim!
BEL - Você me nega a mão, 
e sou eu a agressão? 
Você se fecha
e sou eu sua apreensão?
Os olhos sensíveis
enxergam mera ambição.
Pode sair daqui enfim 
desta peça 
da minha vida.
de mim.
BERNARDO - Volto.
BEL -  Alguns se transformam, outros passam atávicos. 
Agradeço por me acordar do sonho alienado. 
Considerava possível filhos de amor, 
mas isto pra você é dor.
BERNARDO - puro torpor
BEL - Não morrerei às traças. 
Não serei comida pelos corvos 
num mini apartamento em Paris. 
O despertador não vai tocar às 4 da manhã por 1 semana 
A vizinha cansada não irá desconfiar do meu sono infinito 
vindo do respiradouro do prédio em Copacabana.
BERNARDO - Não morro nunca. Sou ficção.
BEL - Desta água não mais beberei, irmão.

perda de uma parte


Perder uma parte do corpo
é sério
desenvolver vida.
E você? 
Partilhará 
desta ida?
desenvolvida em mim
como húmus?
Como mulher mistério
ou me manterá 
em pensamento estéril?
éramos nus
e agora partida
membro enfim
torto
roto
sim
mais forte do que era
ó vida!

quinta-feira, março 29, 2018

Amor al

o tempo da alteridade
Tempo mais lento
Como se a impulsividade ou ansiedade 
regidas pela necessidade capitalista de sair vencedor 
em combates relacionais austeros 
tenham ofuscado uma visão mais ampla

Se eu tivesse tido a paciência 
Se eu me conhecesse melhor
Se eu pudesse me ver com os olhos que me vejo hoje naquele momento de outrora

Mas assim é a vida
Ali então não compreendi o quanto deveria ter sido fiel à minha dor. 
O quanto deveria ter me entregue ao pacato tédio ou ao não saber. 
O quanto deveria ter me recolhido em depressão. 
Mas lutei contra. 
Me mediquei, reagi fugindo.

Você me testava.
Não passei no teste.
Você me reprovou.

Se eu soubesse que era um teste teria agido diferente? 

Esta é a descoberta e agora a união de todas performances que fiz na vida.
Não mais trairei minha dor.
Senti-la-ei.
Foram tantas as vezes que o amor se apresentou.

Sim
Um tempo mais lento
De um comodismo talvez
De uma demora a perceber que existem outras opções, para desaterrar e seguir adiante.

De que me serve esta idéia fixa em você ? 
A desculpa que eu precisava para justificar minha melancolia, minha necessidade de solidão ? 

Por que com você logo com você fui feliz? 
Por que me subjugar é ser feliz? 
Fui feliz?  
Qual caráter revolucionário tem aí para me mover com tanta paixão ? 

Falhei.Falhei em ver amor em continuidade 
Em criar raiz nos pés de um pássaro.
Por me saber infinitamente elástica não tenho medo de fixar-me.

Se um dia em seus vôos passares por aqui de novo 
- talvez eu esteja testando-me para este concurso sem vagas - 
eu, aquela falida candidata, 
estou aqui ainda em treinamento. 

Não queria ter novamente a sensação de viver numa prisão moral.
Se minhas lágrimas pontuais e frequentes há exatos 800 dias tivessem moral, não estaria aqui escrevendo.

Este amor que me atordoa é imoral.
Amoral
Amor all
Mora lá aqui.
Dentro de mim.
Estrangeira sou 
dentro de mim.
Por não ter compreensão.

Meu primeiro namorado morreu antes de...

Tá ai o registro 
encontrado
impresso
entre tantos

Tá aí a revelação 
da primeira alegria
entre prantos

Tá aí o chiste
não comentado
Tá aí o lance de dados
A promessa de que não mais tropeço 
nesta via 
que tramo

Tá aí o sim.
Pra você e pro mundo que abro.
Àqueles que se renderam 
sem nunca terem acordado
prezo
É humano.

Tá aí aquele
retirado
sem regresso
mesmo com o passar dos anos

Tá aí a vida 
fazendo seu bordado  
então peço 
através de outros planos
que escute agora
todas vezes que rezo
Eu te Amo.

Paz, Pablo ( 1975 - 2017 )
Saúde e Amor pra quem você deixa.
Te agradeço imensamente por me ensinar.

sexta-feira, dezembro 01, 2017

Fantasia de Brilho

Se minha fantasia fosse esquecer quem sou;
sair com peito 
vento vestido
nos brilhos da existência
sem nada querer,
a não ser 
Amor
pra tudo.

Se minha rainha evocada 
por Deus
serena
passasse a dor
e revestisse
o torpor 
em paetê
no mundo.

Se o bumbo do tambor 
fizesse meu coração 
bater
centenas de anos
flautas fulanos 
nas gramas de cheiro 
verde chuva.

Se a lama que me afunda 
plataforma 
fosse 
de sal grosso
Rosa
Se o banho de prata
um flutuar de coração
sem rumo
subindo subindo
em oxigênio uníssono
uno.

Um Brasil assim
sertão cidades 
de pureza alegre 
de gentileza entregue
e cafunés sem fim.
E o estupor 
fizesse bramir carne viva
sorrir as vacas
sem medo de mim.
E no ouro
mulheres homens livres intuitivos
dançassem no desejo de não ser
só mente,
os pesadelos arrogantes
apagados de rompante
abrindo
na volta pra mesa
as gravatas
e nos olhos 
pirlimpimpim 
de risos arbórios 
e molhos
às doces democráticas utópicas de todos

bravatas.

quarta-feira, novembro 01, 2017

Samba da Nêga Brasileira pro (Cineasta) Italiano

AÇÃO!

Samba, bela,samba!
Que esta alegria que o gringo te demanda,
que este afeto que traz desejo ao
intelectual analfabeto
te floresça organicamente a cada dia
e que se dissolva toda esta agonia
da memória do tempo
em que esta boca sorria.

Samba, bela, samba
é de pequeno que se morde o menino
e é com veneno que se come o pepino.

Samba, bela, morre

é das tuas cinzas que estas pedras brilharão.

sexta-feira, setembro 08, 2017

Perdoa

Rio de Janeiro, 7 de setembro de 2017

Me perdoa, 

por estar tentando aprender a confiar e valorizar quem me dá ( ou me deu um dia ) afeto
pelo meu kharma e pelo trabalho que enfrento corajosamente para transformá-lo
por ter experimentado desabrochar, ultrapassando a membrana de vergonha que tenho de mim
por não ter me acostumado a ser olhada e lutar por isto com uma armadura frágil
por só agora realmente assumir os monstros internos e tentar sensibilizá-los com escuta e paciência
por te amar e desejar diariamente ser amada por você
por querer ser sua família, ser parte de você, da sua família, te dar uma família
por fazer minha filha te amar e amar sua família e querer ser amada por você e sua família
por querer te dar tudo que sonho e sonhar que você me desse alguma parte do seu todo
por me amar com parcimônia
por ter sido criada neste ambiente católico machista repressor que coloca o outro à frente de si próprio
por relativizar os defeitos dos meus familiares como opção à solidão total, sem deixar de militar outro modo de agir, falar, pensar e ouvir
por querer preservar o que é nosso, só nosso, meu e seu, meu, seu e da nossa filha
por não ter sabido preservar o que é nosso, só nosso, meu e seu, meu , seu e da nossa filha
por ainda querer preservar o que é nosso, só nosso, meu e seu, meu, seu e da nossa filha
por ter me desesperado completamente à sua primeira partida, considerando o fim dos tempos
por me agredir para te provar o que não preciso provar para ninguém 
por enxergar padrões e às vezes cair neles
pelo medo fatalista ansioso e agressivo que meus ancestrais me transmitiram e que respiro silenciosamente em aversão, dando as mãos ao livre-arbítrio
pelas vezes que me rendi ao sistema capitalista e à minha veia empresarial imobiliária
por me perder e te ter como bússola
por querer cuidar de você e ser cuidada por você
por errar
por ousar ser sua base, seu chão, seu pouso, seu lar, sua casa
por todas ilusões que criei para sobreviver
por querer viver a realidade ao teu lado e querer que você quisesse o mesmo
pelo meu feminismo romântico
por, além da necessidade, gostar muito do trabalho e do estudo e te admirar pelo mesmo
por ter te transformado na minha máquina do tempo que me leva de volta aos prazeres da infância
por querer compartilhar toda beleza em volta de mim e o pouco que aprendi e adquiri nesta vida contigo e desejar o mesmo de você
por manter-me curiosa diante dos tempos, das culturas e dos gostos, mas querer explorar o mundo e continuar a viagem contigo
por misturar tu com você (e eu e nós )
por ter tido vontade de fazer teatro junto com você, considerando o que temos de melhor em cada um de nós
por mal interpretar e desentender alguma palavra, impulso ou plano seu
por ter falhado em compreender qual era o pacto
por precisar tanto do meu espaço e não te fazer perceber isto
por ter acreditado ser possível conquistar, curtir, fazer ficar sempre bonito e gostoso contigo um apartamento em São Paulo outro no Rio (ou só num lugar do universo destes qualquer)
por ter acreditado ser possível conquistar, curtir, fazer ficar sempre bonito e gostoso contigo uma casa no interior ou num litoral destes
por ter acreditado ser possível conquistar, curtir, fazer ficar sempre bonito e gostoso contigo um cachorro ou um cavalo ou uma galinha pra dar ovinhos ou uma tartaruga ou uma vaquinha para dar leite (ou não)
por me virar sem você, ser independente e insistir na nobreza espiritual do amor verdadeiro entre um homem e uma mulher, por insistir em você e eu, por insistir em nós
por ter acreditado ser possível conquistar, curtir, fazer ficar sempre bonito e gostoso contigo um irmão ou uma irmã para a nossa filha (ou não)
por lembrar do teu pedido de casamento, da minha reação, da reação da sua tia internada no sanatório
por ter gargalhado com você com a cena da sua mãe e suas tias comemorando a boa (e imaginada ) notícia de que eu estava grávida de você
por ter me dedicado tanto ao brinde e as dificuldades do seu primeiro grande trabalho
por ter jogado incessantemente com você à espera do primeiro contrato
por ter me anulado inúmeras vezes
por ter contado contigo para fazer da minha filha um ser humano melhor
por ter confiado tanto em você e esperado o mesmo de volta

por não estar conseguindo me libertar desta dor
por colocar a chave desta prisão em tuas mãos

só quero teu perdão, teu sincero perdão,

com a promessa de que estou me cuidando, como você me sugeriu em todos finais de telefonemas

Me perdoa, 
( mas me perdoa só se realmente estiver me perdoando em cada um destes itens, se em algum deles você não tiver me perdoado, me diga - ou não - e saberei )


Te agradeço de antemão 


quarta-feira, agosto 23, 2017

puta transa

O que buscam estas gêmeas
na patologia dos escrotos?

Terá algo a ver com punição?
Roubaram algo do pai?O pênis talvez?

Que loucura a beleza da sua tez
olha só, pára agora, goza logo, 
tem alguém ali fora esperando a vez.

Promessa

Jamais serei de novo senhora 
de um belo homem machista 
talvez com outras categorias 

( progressista, feminista, abolicionista, alienista, anestesista, anti- militarista, arborista, behaviorista, acordeonista, antagonista, protagonista, biografista, bolchevista, ceramista, contorcionista, cronista, deflacionista, economicista, eletricista, etimologista, exibicionista, garagista, evangelista, fossilista, malabarista, linguista, marxista, nudista, paisagista, percussionista, paulista, pacifista, otimista, psicanalista, tenista, utopista, xadrezista )

até mesmo adoráveis istas
pra posar no insta
Jamais me colocarei novamente de fora
de um mundo de trabalho 
de raridade em essência.
Tô fora é do sistema 
Sou Nora,
criada por Ibsen,
nunca gostei de brincar de boneca.
Meu faz de conta é agora
nesta ilusão que invento
pra fazer você crer
que é cavalo antônimo merecedor de penhora.


Transformação, é chegada a hora .
Virei novela da Jane Austen

Na aquarela diária 
x
Quem é você pra acreditar que pode me manipular?
Me impedir de conversar na terra onde sempre fluí…
São tantas histórias, meu bem,
por onde passei, ri, brilhei…
e eu as abri
como um livro que não te deixa dormir.

nesta Inglaterra perdida em série.
Este não, este não, este não…faltam candidatos…
à nossa presidência.
Vamos brincar de ser humilhada?
Você me dá banho de dinheiro
e pergunta se é por isto que estou ao seu lado.
Nuvens milionárias
verdes prados fluorescentes musgos
bonitos castelos
pianos desnudos
uma estufa onde cresceu uma bananeira
e onde habita sozinho
um passarinho
tropical
triste.

Amor, vou depilar à moda brasileira
Bucetas grandes pequenas
e o bigode do Hitler como inspiração.
Como pode alguém nisto sentir tesão?
Tá aí algo que não falta no mundo, 


Preferia estar agora num filme de ação,
cair do segundo andar do saloon
em salto vital
sem impacto algum.
Pápápá
vrum vrum
Você na sua moto
eu loira loirinha

Percebo no lance, você tem raiva inveja de mim:

“vou acabar com ela
pouco a pouco
espizinhar.
Será meu melhor brinquedo
aquele que destruo
porque posso reconstruir
sem pé nem cabeça e com coração em pedaços espalhados pelo intestino
sou moleque
e tenho este passatempo de menino
desmonto 
porque depois

CORTA!
não, não, não
é esta memória aqui.
Barras de chocolate e havaianas eram os presentes de natal. Nada mais.

Uma vez entrei no caixão do morto
para fingir praquela vizinha
que a sanidade dela se esvaía
Boa, eureka!
Não terá mais consciência sã a boneca!

tenho obsessão mesmo é pela cor verde
tá pensando em floresta
como se fosse o que nos resta?
é precária 
hipócrita
esta noção
verdinhas são
a mais alta casta de opinião…
E foda-se a mata!

Você pensa que não sei que você sabe que o que sempre quis era o que tinha?
Que o que queria era te dar esta rasteira e te tombar deste posto de rainha?
Você bem sabe o que é golpe, né, gatinha?
Miau miau
um beijo e tchau.
ciao, bella, buona notte
dorme com os anjos e pede proteção
você vai precisar
se quiser sair da ilha
e nadar nadar nadar
no teu (a) mar


dor latente


Tá doendo em mim este rim.

Trrrinta e trrrês!

Espingardas atirando algodão
É natal, já já carnaval e fantasia
tantas rolhas bebemos
e marquei a testa depois daquele campeonato perdido.
Bebemos whiskie
te ensinei a jogar
e no buraco
esperamos
esperamos
e esperamos
jogando e bebendo

uma criança de 3 anos
aprendendo a pronunciar
trrrrrês
trrrrrinta
trrrrrrinta e trrrrrês
o  médico pediria
“fala 33”
trrrinta e trrrês
E diríamos, já infartando

uma negra linda e gostosa
canta e 
nos faz pastéis

de carne

idílio hipócrita
ipanema
vento e lua
cheiro de sal de mar

um negro lindo 
gentilmente
a nos elogiar
limites de um mundo exposto

sua crueza
sua dureza
você torceu esgarçou até o fim
não sobrou uma gota
no tubo de ensaio
do seu laboratório
na sua tese de mestrado
sobre história do Brasil

“Chicotes nela!Maltrata!”
e me tornei culpada 
por toda esta sociedade escravocrata.

Nasceu branca 
vestiram-na com maria chiquinhas lacinhos e tênis nike…
Abusaram das fotos 
da vontade de ser primeiro mundo.
comiam quindim e sorriam
comiam quindim e sorriam
os olhos da sogra vidrados

“veja bem garotinha,a vida não há de ser fácil assim,
chegou a hora de você sofrer, vou murchar todas flores deste jardim,
Daqui a 3 dias todas borboletas estarão mortas.
É o tempo real,
sem drama barroco.
Seu sangue vai escorrer e nossos lençóis 
fios frios sem filhos
vão estar misteriosamente passados a ferro
como aquele passarinho seco
que do ninho nascido morto sumiu.

ó, pequena vítima da burguesia
especulada na promessa de uma vida melhor
que em vez de apresentar preguiça
trabalhava, corria e insistia 
em explicar que couscous marroquino
não é igual farofa

Engraçado, minha mãe também parou no macarrão com linguiça.

virtualmente cruel

Simulacro opaco
Você nesta fotografia menor ainda que 3X4
E os pontinhos dedilhando
como se quisessem me fazer gozar

Te conheço de perto
Olhos fundos
tem algo em olhos masculinos fundos
certa doce rusticidade italiana
e um vício ancestral por dominação

“Isso, isso, é assim que se faz”

Uma pessoa, outra pessoa…
Somos animais bossais?
Meses de conquista
músicas enviadas
O que você queria, àz?
Poesia agora ignorada
e esta máscara virada pra trás.
Realmente a ambição dos homens 
é nada além que um prato de comida
ou melhor dizendo,
uma boa trepada
e uma dormida.

Só que agora, querido mestre
viro peste
te encaro
sinto vergonha do meu desejo
por que?
Afinal de contas qual ensejo
me leva
a querer saber de você?

Resgate do meu eu menor 
era mais eu aquele eu?
Pequena cristã na arena com leões
Quanto prazer em destruir corações

E agora me jogo no coliseu
meu corpo fala
me devorem!
Pra corroborar talvez
as pragas de minha mãe
em magoadas orações.
Aquelas missas
construindo esta minha culpa.
e a busca pelos homens do interior,
pelos homens do norte
esta viva fascinação.
E no colo dos homens mais velhos,
a confortável compreensão.

Antes não tivesse esta necessidade de dopamina no cérebro

cia

Não tenho companhia
nem de teatro

nem pra ir ao

"fui correr e já volto" - novo " vou comprar cigarro e já volto "

Maldita manhã ensolarada,
em que você saiu pra passear
sem nem bom dia dar
me deixando aqui prostrada.

Quando chegarei a este nível salutar?

"você pegou minha mão, lembra?"

Nasci pequena
monstrinha
“vem aqui catar conchinha?”
você me diz que disse
"então, você não entendeu?"
você me diz que eu disse.

Sinto algo ruim
a te olhar nos dias de hoje
me relembrando
“não sei lidar com sua paixãozinha
- foi assim" 
E eu aqui com estes brincos de marfim.
Cadê os cavalos que deveriam estar correndo aqui ao lado?
Cadê os chapéus e as apostas?
Acho que você viveu certa ilusão ou sou eu ainda?
“Tinha absoluta certeza que íamos ficar juntos”
O filme acabou? Chegamos ao fim?

“E sua mãe? Não desenho o quadro, a figura, nunca vi…”
O que me faz pensar
tantos verões
quantos anos, amor…
Você me refresca na memória imagens reais
Onde estava minha mãe?

Me fazendo crer
num príncipe encantado
e me levando a ignorar
o não sei que nome dar 
que estava ao meu lado.

Não a culpo
Ela me ensinou a amar o teatro.
Mas tampouco ela aprendeu a técnica do jogo cênico
e quando a peça acaba
a vida termina
e quando a vida começa
a peça fulmina.


quarta-feira, agosto 16, 2017

Cordilheira do Amor ou Nevou no meu Brasil

Nevou no meu Brasil”

Eu no meu cavalo, montada, seus olhos por todos os lados. Você me vê. Te vejo.
Ah, Cordilheira, quantas pessoas se perderam entre seus vales? Como se atravessa um acidentes destes? Como foi a tremida da Terra pra você nascer? 
É preciso subir e descer, subir e descer, 
perfurar desanuviar, saltar, esquiar, fluir em puro prana. Aceitar o vazio à frente, 
não saber o que falar, escrever, 
o que sentir, viver. 
Um cisco no olho, lacrimejo, 

um cílio caído no branco inteiro de um lírio enviado, recebido, enviado, 
entregue, lido. Ser amado. Ser armado. Corpo desalmado. 

Chegamos então à palavra que faltava. Onde ela fica nestas montanhas? A palavra, o verbo? Crer. Acreditar, acreditar na fantasia de um amor com fim. Assim como a vida 
com morte.

E a pedra crua marrom escura, a realidade acima de 0º, os campos onde árvores não cresceram sequer morreram, oxigênio seco e aviões cinzas, a bancada agrícola dominando o planalto, juízes democráticos apoiando populações ribeirinhas, as ditaduras na América Latina, o efeito Orloff em nós. Eu sou você amanhã.

Mas que meu amanhã sem você seja meu, meu só meu, Cordilheira, 
que seja resgatada a identidade brasileira,
e que eu não esteja perdida apesar da iridescência ofuscada… 
Que todas manhãs sejam paz brancas ingênuas abertas e leves…opacas… 
novamente, sempre novamente… 
e que eu esteja preparada para o frio… 
porque é preciso manter a pressão alta, 
sem autoritarismo, ditadura, vaidade, censura, casta ou machismo, 
sem qualquer ismo… 
tudo é uma questão de gosto ou 
liberdade

Vênus Vênus Vênus, ela, Venezuela, sua origem, Cordilheira, sua Deusa nascida da madrepérola, 
Afrodite oriunda da espuma do mar, 
Planeta ancião dos vulcões do mundo.
Terra de gritos vãos.
Vista-me de vermelho, dê-me coragem para o outro.
Quem é você? O que você pensa? Mas quem é você? E mais: quem sou eu?
Onde estamos? Quem somos nós? 
Vênus do amor, estrela d’alva no céu, me aponta. 
Importa? Pra quem?
É uma questão de mercado?

Tem o amor ao amor e tem também o medo do medo. 
Uns se deixam amar. Outros têm medo. 

Aceitar o vazio à frente, não saber o que falar, escrever, o que sentir, viver. 
Neve. Neblina. Branca, prateada.
Chegamos então à palavra que faltava.
A palavra, o verbo, onde ele fica nestas montanhas?
Crer, é preciso crer para se manter vivo. 
Mesmo que a paisagem seja triste ou simplesmente esta. 
Considerara esta cordilheira andina,
com pirâmides e patas de leão 
de pedra,
mas nada resta.
Fogo de palha.Nem sambaqui.
Arqueologia efêmera
assim como um tupi
niquim.
Nem analisa
nem lembra não,
isto é pra mim. 
Uma raposa na surdina,
não suporta museu.
Seres humanos inventam 
piscina,penicilina, 
preconceitos, trejeitos,
desfaçatez 
água com gás, 
creme inglês, 
guerra e paz, 
mas este morango, este morango, cordilheira, é milagre divino. 
E este vinho foi Baco quem fez
quando ainda menino 
as uvas espremeu. 

Loucura sagrada, sou tua noiva profana. 
Somos astronautas no seu foguete Challenger, 
preparados para explodir. 
O que mesmo não pode vir antes? Ácido ou Base? 
Geléias de jaboticaba feitas em casa 
elixir
colocado 
no cume 
do pão.
Frutas pretas que nascem 
coladas 
ao caule, 
bonita, gostosa, especial, tropical.
Mulheres projetam Asas Deltas sobre o céu daquele que parece o Dois Irmãos. 
Sobre este platô poderíamos botar uma televisão. 

Peixes Peixes Peixes no reino encantado 
de um sítio 
do picapau 
amarelo,amarelo, devagar, 
o sinal, o sinal, 
cautela cuidado. 
Balde de água fria. Frieza. 
Surfamos de long John, então? 
Não. Pra quem reinicia, mar revolto não

Nebulosa e branca está a cordilheira. 
De frestas profundas e nefastas é bela inatingível.
Desenrolo sobre a neve gélida que você se tornou. 
Sou avalanche. Eu sou avalanche. 
Rasgo em busca do espírito que me deixou. 
Soul. Alma zombando de um corpo que tem prazer no flow. 
Este sim está aqui, ficou. 
Digam ao povo que meu corpo ficou. 
Está aqui sobre este cavalo, 
tum tum tum tum. 
Digam ao povo que meu corpo ficou.

Regado a rum.

Nesta terra fértil onde tudo floresce,
voam cavalos alados.
Crianças em trenós, 
não estão armadas 
são almas sorrindo deslizantes
não traficam por aqui, vejam só, 
as crianças brincam,
se penduram, mergulham dos cipós!
O lixo está camuflado, nevou!
Nevou no Brasil!
Tudo pode aqui pode tudo aqui, acreditem! 
Até amor verdadeiro depois do gozo branco arrebatador
e as outras mortes são pequenas, 
pequenas mortes
que só dão brilho

à vida.






“Pintura que fala nº 1: “Cordilheira do Amor ou Nevou no meu Brasil”
Daniela Corrêa Fortes

Tinta Acrílica sobre Tela + Escrita + SoundPlayer/Fone 
100 cm X 80 cm

Sounddesign: 
Rodrigo Marçal

Interpretação: 
Olívia Torres









quarta-feira, agosto 09, 2017

galinha de ouro

Você me chupa, me lambe, me trai, 
canto, canto, canto...quantas pernas, 
te mordo na cox, 
xinha 
cachorra que sou; 
a galinha é de ou-
ro 
e anda na gra-ma,
minha 
reluz flúor 

nos den-
tes 
comerciais.

terça-feira, agosto 08, 2017

Vento Dentro sem Fogueira

A chaleira canta
o vento da minha infância.

Será que o Beto já dormiu
ou toca um Beatles no seu violão?

Já olhei a lua
sem rede pra balançar
do carro na rua
Aqui vou trabalhar
Apagar o chá
Me olhar nua
parar de sonhar.

A vida real conta
que o vento do entardecer
entrou na chaleira
e só toca mesmo
pra me lembrar
que o Pablo morreu de câncer
e que o gás pode acabar,
se eu não pagar a conta.

Tonta.

Sou a moça que não soube ser amada.
Precisou morrer de amores
para perceber outras dores.
Passou a se brotar flores
para suportar os horrores.

(...às crianças do vasto mundo,
que elas saibam ser amadas)

Foi tanto te amo te amo te amo
que quando o amor apareceu de fato
teve que sambar escondida na moita
camuflada no mato.

Foda-se o que não está em mim.
Fodam-se as conquistas do império.
O que sou eu afinal?
Carne de negociação?
Pra que me colocaram aqui afinal?

hahaha
a criatura pensa
e
antes tarde que nunca
aprende
e se permite
ser amada
sabe por quem?
por quem está mais no interior do interior
dentro fundo
com sotaque e afeto

e coração bom.
cadeira de praia
tempo em vão.

por aqui acabou o teatrão
queremos gaivotas
goiabadas
tangerinas
roleta gamão tapão.

sem eira nem beira sob a presente amendoeira

com você reconheci meu eu
você se foi e me roubou de mim

minha relação com a natureza
passou a ser sobre você
minhas árvores são suas
minhas praias seu sol
minhas ondas sua inaptidão para o surf

E eu?
Cadê eu?
Cadê meus pés queimando?
Cadê minhas costas tostando? Meu cabelo curto, aquelas mãos e as trilhas?
Cadê o cheiro destas folhas úmidas no chão?
Cadê minha filha dançando ópera com a caixa de som?

Nesta praia cresci eu.
Sob estas amendoeiras estava eu.
Elas deram sombra à mim.

Eu era eu?

Chapéus de Sol não vou chamar assim
amendoeiras são.
E da mesma maneira que não encontro fim
barreiras crio para a memória do grão
de areia
que esperneia
em vão
diante do mar revolto
torto corpo torto
remexido
pelo trovão
pela tempestade
por você que se diz são
fazendo de mim só coração
que mente
até pra si
este tempo ido
fingindo para este corpo vivido
à própria idade
que o presente
ainda te pertence.
Devolva-me a mim
ou permita que eu recupere
seu simples impensado e sem teimosia, vaidade ou machismo
sim