segunda-feira, abril 09, 2012

Agradável,bom e belo para Kant

A analítica do belo kantiana é uma análise subjetiva, ou seja, trata-se da análise de um sujeito. O juízo de conhecimento estético que percorre da experiência do Belo ou Não Belo, ou seja, a experiência estética, é relacionada ao seu “sentimento” de prazer ou desprazer. Observação: na tipologia de Kant “sensação” é a representação objetiva dos sentidos, que diz respeito ao corpo, diferente de “sentimento”, que é subjetiva e que diz respeito à alma .

O juízo de gosto não é dado pelo juízo de conhecimento, não é lógico e sim estético. A afirmação “Os quadros de Picasso são belos, logo eu gosto deste quadro de Picasso” não vale como juízo de gosto, portanto.

Uma cadeira, por exemplo, normalmente você reconhece como sendo uma cadeira. Relacionar-se com uma cadeira não seria uma experiência estética, a não ser que você tivesse ficado em coma por um longo tempo e tivesse um prazer enorme em perceber que aquilo é uma cadeira, mas normalmente a cadeira é reconhecível como cadeira, uma espécie de termo/categoria/representação, que se dá através do seu juízo de conhecimento. Algo diverso da representação diante de um sujeito que é consciente da sua sensação de comprazimento ( do alemão Wohlgefallen - algo que satisfaz, que é plenamente determinado de sentido, comprazimento, satisfação, agrado, deleite, gozo, aprovação ). Representação é tudo aquilo que se coloca diante de mim. Algumas mais do lado do sensível outras mais do lado do intelecto.

Para Kant a experiência estética está ligado ao sujeito e seu sentimento de vida. O prazer estético está relacionado à experimentar a própria vida. O lugar da graça de experimentar o mundo com todas as cores, formas e sons que ele tem. Uma predisposição de ânimo, ou seja um “sentimento de vida”; o que é estar vivo como um homem por excelência; o encantamento que nos liga à arte, à natureza, que faz a vida valer a pena (segundo Nietzche, a vida só se justifica esteticamente). Sentimento que poderia ser explicado pela frase “ que bom que eu sobrevivi para ver isto” - tomando como exemplo uma pessoa que foi torturada e sobreviveu e dá um depoimento, inesperadamente isento de ressentimentos, como “ eu gosto de viver, eu gosto de ir à praia, de vento, dos passarinhos…”. Este “sentimento de vida” seria o reconhecimento de que alguma coisa que está acontecendo não é qualquer coisa.

O comprazimento é algo que se dá através da sua imaginação, que é a faculdade formadora da forma ( em alemão Einbildungskraft ( imagem/forma/formação). Todo múltiplo sensível que toma forma em mim diz respeito à minha imaginação. É o conjunto de estímulos sensíveis que se apresentam em mim de forma unificada. A imagem que se forma em mim. Ligada ao plano sensível. A imagem que se forma também pode ser difusa, ser só no plano das sensações. Já alguns sentimentos são ligados ao racional “ eu não gosto disto que você fez”- é um comentário moral. Posso ter prazer e desprazer que não são meramente estéticos.

A experiência do belo se dá a partir da faculdade da “imaginação” do sujeito em livre jogo com seu entendimento. É da ordem do sensível junto com o reflexivo.

Kant afirma que a atestação do belo como belo (experiência sensível e intelectual ao mesmo tempo), liga-se à experiência de um prazer desinteressado ( ohne Interesse ), diferenciado de outros dois tipos de prazer, que, segundo ele, estariam ligados a interesse, que seriam o prazer ligado ao que é agradável ( experiência meramente sensível ) e aquele associado ao bom útil ou bom moral ( experiência meramente conceitual/reflexiva). “Estar interessado em algo” significa antever prazer de alguma espécie associado à existência, à posse, ao contato, à experiência ou ao acontecimento de alguma coisa.

Para Kant o comprazimento no belo é desinteressado. Só acontece se eu deixar que o múltiplo sensível de suas formas, etc…me deixe ter prazer…Não posso deixar que outros componentes daquele “troço” afetem minha experiência. Eu tenho que isolar.

A experiência desinteressada tem que se sobressair em relação à outras experiências. Causar prazer sem que você esteja interessado em ter prazer. Ser um elemento surpresa. É necessário um deixar-ser, um deixar-aparecer…a experiência da gratuidade.

A experiência do belo é meramente subjetiva, mas nós podemos pensar como partilhar, pensar em como objetivar, porque você presume que há uma objetividade no prazer que você está sentindo, você acha que o outro pode ter o mesmo prazer que você. Uma determinada experiência te dá tamanho prazer então é possível compartilhá-la. Esta seria uma das características do ajuizamento do belo.

Da Vinci disse algo como “Arte é coisa mental”, ou seja é uma experiência sensorial, mas intelectual / reflexiva ao mesmo tempo. Existem prazeres que não são puras sensações.

O sujeito poderia viver a experiência estética do “belo” ao degustar um vinho, por exemplo, poderia dizer, este é um “ belo vinho”, por sua opacidade, transparência, viscosidade… como sendo algo que cria memória… pelo sabor que fica…tornando-se uma experiência reflexiva além de sensorial. E aí você diz para outra pessoa “ toma este vinho que vai te dar prazer…”, você tem desejo de compartilhar a sua experiência, por ser uma coisa diferenciada. Ao tomar este “belo vinho” eu posso ter um prazer desinteressado, ficar apenas focado em unir as múltiplas sensações em mim, desfrutar do prazer de um determinado conjunto de notas gustativas sobre mim…é diferente de alguém que bebe um vinho com o interesse em “tomar um porre”. Cabe observar que só se pode dar a comida a chance de representar a experiência estética quando se está sem fome.

Causar é diferente de favorecer. Você pode favorecer a experiência estética, mas nunca poderá causar. A experiência de se tomar uma coca-cola ou ter vontade de ouvir tal música, porque é animada… é da ordem do “agradável”, porque eu tenho como repetir a experiência do agrado, tenho como causar a mesma sensação.

No genuíno ajuizamento de algo como belo não pode influir nenhum interesse, quer dizer que o prazer a ele ligado não pode ser obtido por nenhum apetite prévio pela presentificação do objeto. O prazer deve ser consequência gratuita de uma disponibilidade contemplativa, fruto de uma surpresa de um livre favor. Não importa por isto se a existência do objeto traz consigo coisas moralmente reprováveis ou se me traz conforto moral, não importa se ele serve para algum fim exterior, pois não o busco para consumi-lo ou sentir prazer, apenas importa aquilo que tenho diante de mim, a aparência que ao ter a chance de ser contemplada desinteressadamente me traz prazer ou desprazer.

Exemplos de juízos em torno do belo: “gostei imensamente do filme Rashomon, do Kurosawa”, “amei a vista daqui de cima da Pedra da Gávea, é linda mesma estando a cidade tomada de prédios”…

O comprazimento no agradável é ligada ao interesse, a uma apetição. A sensação pode ser boa ou ruim e o sentimento está ligado ao prazer ( na tipologia Kantiana ) ou desprazer. A sensação da cor verde, sensação de frio/calor que pode ser agradável ou não. A experiência do que é agradável é uma experiência sensível e ponto. Exemplos de juízos em torno do agradável: “gosto de comidas temperadas”, “adoro amarelo”, “aprecio melodias suaves”…

Já a experiência do que é bom, útil ou moralmente, é conceitual/reflexiva e está também ligada a algum tipo de interesse. Exemplos de juízos em torno do bom útil: “não gosto de horário de verão”, “não gosto de coisas mal feitas”, “gosto mais deste quadro porque é um Picasso, porque é mais valioso e desejado…”. Exemplos de juízos em torno do bom moral “aprovo sua honestidade”,“não gostei das suas atitudes na festa”,“não gosto deste quadro, porque seu autor era um canalha”. Existe aí também uma possível separação entre o que seria estético e o que seria ético.

A experiência do belo é como se fosse um “ponto de interrogação” que vagueia entre o reflexivo e o prazer sensorial, uma reflexividade contemplativa. Como se diante de um quadro eu ficasse tentando chegar a um conceito e justamente por não conseguir chegar a este conceito é que o objeto continua traduzindo outros mistérios, e eu fico vagando diante do que é este enigma, o quadro aparece para mim como um sentido, como uma inteligência, mas eu não consigo reduzir a um conceito. Para Georg Bracques, “em arte só uma coisa tem valor, o que não se pode explicar”. É indecifrável. Kant, no entanto, é escasso de exemplos de juízos de gosto em relação à arte, talvez ele esteja falando da experiência estética em relação à natureza. Pensando em exemplos de obras de arte contemporâneas que poderiam ser consideradas belas no sentido de tentar retomar a relação com a natureza, poderíamos citar os pára-raios no deserto de Walter De Maria ou o Spiral Jetty de Robert Smithson ou até Richard Long trazendo a natureza para dentro da galeria e compondo esculturas com as disposições das pedras no chão. Cabe lembrar também que nem toda arte é bela, pode ser sublime ou só gerar um tipo de prazer. E que o belo aqui não significa que não seja feio ou que siga qualquer forma de padronização formal. Uma carranca ou uma máscara africana pode ser considerada feia e ser bela. O que importa é a forma como a coisa se apresenta em mim. A constelação das sensações e sentimentos que se dá em mim.

Segundo Clement Greenberg ( em entrevista a Ann Hindry em 17.05.1993 ) in Clement Greenberg e o Debate Crítico, Rio de Janeiro, Funarte/Zahar,1997: pode-se olhar a arte e não ter experiência estética, como se pode ouvir música com o pensamento em outras coisa…pode-se assim simplesmente passar diante de um quadro ou escultura. Mas quando se faz o ligeiro esforço de centrar a atenção no que se tem diante de si, então se gosta ou não se gosta. O Juízo estético é isso. A Experiência intuitiva que leva a ele não é buscada. Não decidimos se vamos gostar ou deixar de gostar… não temos poder de decisão… Acontece de amigos queridos nos mostrarem uma obra de arte de que, desolados, descobrimos não gostar, ou , ao contrário, de gostarmos a contragosto de obras que uma pessoa que destestamos nos mostrou. A experiência estética é intuitiva, não tem nada a ver com lógica. Evidentemente, muitos fatores externos, não estéticos, entram em jogo. Trata-se então de trabalhar sobre si mesmo, não é tão difícil assim.”

Sobre o desejo de compartilhamento do que é belo, ele diz na mesma entrevista : “ …o gosto é para todo mundo. Ademais não comunico o meu gosto, mas o processo desencadeado por ele. Não ajo de maneira diferente por ser crítico, mas, a partir do momento em que escrevo e proponho resultados de meu gosto em escala social, busco evidentemente o assentimento. Kant fala dessa busca de assentimento na “ Crítica do Juízo”. Não digo: “ Concordem, porque sou eu que estou dizendo”, e sim: “ Olhem a arte de que estou falando e vejam se estão ou não de acordo comigo”.As palavras não bastam, é preciso olhar. Já me aconteceu de mudar de opinião, mas nunca por causa da retórica de alguém, mas porque fui rever alguma coisa após ter tomado conhecimento do juízo de alguém cujo gosto eu respeitava, que era capaz de ver (…).”

Quando algo é julgado belo o espectador tende a universalizar o seu juízo,o sujeito pretende que o outro pode usufruir do mesmo prazer que ele, mas dificilmente perderá tempo tentando convencer uma pessoa que banho morno é mais agradável que banho quente. É diferente também do que se sucede com o que é bom para a saúde, neste caso, o sujeito deseja que o outro compreenda os maleficios de determinada coisa.

Outra conclusão que Kant chega em relação à comparação entre o que é belo,bom ou agradável. Agradável significa aquilo que deleita e vale também para animais irracionais e pode se dar por uma inclinação. Beleza significa aquilo que apraz e serve somente para os homens,naturezas animais dotadas de razão e se dá através de um favor ou favorecimento. Bom é aquilo que é aprovado e vale para todo ente racional em geral e se dá por um respeito, mediante a lei da razão. Entre todos estes modos de satisfação, portanto, a do gosto pelo belo é a única satisfação desinteressada e livre. Parece que somos compelidos ao prazer ou desprazer ora pela nossa natureza animal, instintivamente, ora pela nossa natureza racional. No caso do belo, a experiência do prazer se ligaria a algo que poderíamos livremente escolher, sem contrariar necessidades animais ou racionais.

Belo/experiência compartilhável

A experiência do Belo é meramente contemplativa, não se sabe se aquele objeto vai te dar prazer ou não. É sem garantia, o único juiz é você mesmo. É uma experiência gerada pelo favor, ou seja, o sujeito é surpreendido, se deixa ser surpreendido. A fruição desinteressada não é possível para uma pessoa que diz “ eu não gosto de…”, esta é um tipo de postura racional que define o que é bom e o que não é bom a priori e a pessoa acaba se fechando e não se permitindo mais viver a experiência do belo. Desinteresse não é apatia, é supremo esforço, é predisposição. Para Heidegger a experiência do belo é quando o acontecimento acontece. É uma experiência subjetiva, pessoal e intransferível, ao mesmo tempo, me leva, por algum motivo a pressupor que outro sujeito sensível como eu pode sentir o que eu senti. É um movimento de compartilhamento. A pretensão da “universalidade subjetiva” que acontece na experiência estética do belo.

Pode haver consenso a respeito do agradável, mas acerca deste Kant diz, “cada um tem o seu próprio gosto” (dos sentidos). Portanto na esfera do que é agradável existe uma ausência de pretensão de universalidade. O gosto é privado, algo “me é agradável”.

Já quando a gente valoriza algo como belo, a gente considera que será um consenso. O belo, portanto tem uma pretensão de universalidade, que não é fundada sobre conceitos ou razões. Já o que seria bom, ou seja o gosto da reflexão, tem a pretensão da universalidade fundada sobre conceitos ou razões. Eu poderia dizer que algo é bom tecnicamente sem juízo de gosto. Neste caso seria um juízo de conhecimento, pois eu tenho o conceito prévio do que é “bom”. Exemplos de juízos neste caso: “é um filme bem feito”, “é um vinho correto”, “foi feito com dinheiro honesto”… É como se o prazer que eu sentisse fosse uma “satisfação pequenininha”. Uma pessoa pergunta “ Você gostou?” e a outra responde: “é bom”, ela não diz se gostou ou não.

Kant afirma que o belo é universal. Tem a pretensão de universalidade contínua, baseada em sentimento autêntico. Se eu gosto, o outro também pode gostar. Qual a razão desta teimosia? Qual o fundamento deste valor? O artista se expõe buscando algum tipo de compartilhamento ( mesmo sabendo do risco de ser rechaçado ). Qual o papel da crítica de arte dentro disto? Para Walter Benjamin, o papel do crítico é pegar o campo primário aberto pelo artista e a partir dele abrir novos campos, ou seja, potencializar a infinitude de traduções presentes no objeto artístico. Mas isto é outro assunto,voltemos.

Pode-se dizer muitas coisas sobre uma obra de arte que o sujeito considera bela, a fim de compartilhar este prazer, mas nunca será possível recompor o fato estético. Pode-se falar da organização do quadro, da tez, da inteligência sensível do pintor em discernir o limite da cor, construir toda uma gramática da cor e da forma ou se tentar descrever a performance de uma bailarina como leve, precisa, afinada, emotiva… A experiência do belo é singular, insubstituível, irreproduzível, irredutível. Segundo Kant nenhum juízo é capaz de explicar o belo. É um prazer que não é puramente racional é algo que te toca.

A experiência do Belo envolve um componente inalienável de sensibilidade, não há conceitos, sustentáveis por quaisquer ponderações, que, sem a fruição subjetiva do objeto, possam realmente convencer de que algo é belo. Não se trata de postular coisas.

Daí o paradoxo: como pode um juízo pretender-se universal sem poder resolver-se na esfera conceitual? Por ser uma experiência subjetiva que se dá a partir de um prazer desinteressado e livre, ou seja, sem condições pré-determinadas, o sujeito tende a tomar o juízo de gosto como objetivo ou passível de universalização; “ se eu gosto, porque o outro não vai gostar? ”. Isto seria a primeira explicação de Kant para este paradoxo.

No entanto, Kant vai além na sua explicação. Ele descreve um livre jogo entre as faculdades da imaginação e do entendimento e associa esta pretensão de universalidade que caracteriza o ajuizamento do belo a uma experiência de acordo entre essas duas faculdades. A imaginação, como foi descrito na questão anterior, é a capacidade de pegar o múltiplo sensível e transformar em imagens e, no caso da experiência do belo, a imaginação “namora” com o entendimento.

O que motiva o ajuizamento do objeto como belo, portanto, não diz exatamente respeito ao seu conhecimento, à sua nomeação, definição ou conceituação, mas a uma experiência ao mesmo tempo sensível e reflexiva desse acordo entre as faculdades. O objeto belo seria aquele capaz de fornecer ao sujeito uma experiência do seu próprio caráter de sujeito transcendental, isto é, de lugar onde a coisa em si ,transcendente, se torna fenômeno,onde adquire sentido. Experimenta-se um prazer, um “encanto”, diante do fato de ser ( de “aparecer” ) aquilo que poderia não ser. É o prazer diante do milagre da passagem do não ser ao ser, do não sentido ao sentido, prazer diante da possibilidade de um mundo, tal e qual nós, humanos, o experimentamos.

O sujeito é uma máquina que organiza fluxo de informações. As faculdades do entendimento e da sensibilidade se encontram na imaginação. Tudo o que eu vejo é pre-organizado por esta coisa misteriosa que é a imaginação. O mundo é percebido como um conjunto de massa, cores, formas, sensações, sentimentos, percepções espaço temporais, etc… e, num segundo momento é organizado pelo entendimento. Assim seria o funcionamento das faculdades, uma teia de relações. Na experiência cognitiva ordinária – o que entrou pela minha retina, por exemplo: cor marrom,massa “x”,meu entendimento falou “cadeira” ao lado de outras “cadeiras”, “hora tal”,entendo que é uma “aula”. A imagem= conjunto múltiplo da sensibilidade (bild ) se oferece ao entendimento e o que se produz a partir daí é conhecimento. No entanto, às vezes, algo nesta “ imagem” quebra este fluxo e o múltiplo de sensibilidade não consegue entender. Por exemplo, diante de uma Chaise longue Le Corbusier, é uma forma que se quebra, continua servindo para sentar, mas tem mais alguma coisa aí. Quando esta quebra acontece, a experiência sensível reflexiva se dá.

Se você entende, o que se dá é uma experiência com juízo de conhecimento. Na experiência com juízo de gosto, o meu entendimento não consegue me dizer porque eu tô sentindo aquilo… Existe uma demora que vai levar à experiência que é essencialmente contemplativa… A imaginação é uma faculdade misteriosa sem a qual nada seria possível. Na experiência estética existe um livre jogo entre as faculdades. Na experiência cognitiva existe um acordo.

O que se dá no ser humano é: a retina apreende, em seguida o entendimento entende, em seguida o conhecimento se dá. Existe uma interação entre as faculdades que opera o tempo todo. São impressões sensíveis organizadas como um mundo. É na experiência cognitiva ordinária que eu tomo conhecimento de um mundo ordenado.

No entanto, sob o efeito de um LSD, por exemplo, eu tenho uma experiência extra-ordinária, isto seria um “alterar das faculdades”, uma subversão da experiência cognitiva no mundo. São os alteradores de consciência.

Na experiência estética não há química. O entendimento olha pra este feixe e diz “isto não é uma cadeira” tem algo que desafia que diz “ não é só isto “. A experiência estética se dá. É um plus, um indecifrável, que alojado dentro desta massa recusa uma captura imediata do conhecimento. O ajuizamento do belo é uma experiência sensível reflexiva, contemplativa, é uma quebra do fluxo ordinário… A imaginação e o entendimento começam a “namorar”, ficam “enfeitiçadas”, é um livre jogo, um acordo que só se dá no seu afã de realizar-se… O objeto (ou evento ou conjunto de notas, de gestos…) ao impregnar o sujeito é transformado numa imagem e produz esta espécie de namoro enigmático com o entendimento. Na experiência estética o entendimento não consegue reduzir a imagem. Inaugura naquele momento uma outra relação do sujeito consigo mesmo, do sujeito com um mundo que nele se faz mundo.

Agradável,bom e belo para Kant

linhas gerais da distinção feita por Kant entre os ajuizamentos que concernem respectivamente ao agradável, ao bom e ao belo.

A analítica do belo kantiana é uma análise subjetiva, ou seja, trata-se da análise de um sujeito. O juízo de conhecimento estético que percorre da experiência do Belo ou Não Belo, ou seja, a experiência estética, é relacionada ao seu “sentimento” de prazer ou desprazer. Observação: na tipologia de Kant “sensação” é a representação objetiva dos sentidos, que diz respeito ao corpo, diferente de “sentimento”, que é subjetiva e que diz respeito à alma .

O juízo de gosto não é dado pelo juízo de conhecimento, não é lógico e sim estético. A afirmação “Os quadros de Picasso são belos, logo eu gosto deste quadro de Picasso” não vale como juízo de gosto, portanto.

Uma cadeira, por exemplo, normalmente você reconhece como sendo uma cadeira. Relacionar-se com uma cadeira não seria uma experiência estética, a não ser que você tivesse ficado em coma por um longo tempo e tivesse um prazer enorme em perceber que aquilo é uma cadeira, mas normalmente a cadeira é reconhecível como cadeira, uma espécie de termo/categoria/representação, que se dá através do seu juízo de conhecimento. Algo diverso da representação diante de um sujeito que é consciente da sua sensação de comprazimento ( do alemão Wohlgefallen - algo que satisfaz, que é plenamente determinado de sentido, comprazimento, satisfação, agrado, deleite, gozo, aprovação ). Representação é tudo aquilo que se coloca diante de mim. Algumas mais do lado do sensível outras mais do lado do intelecto.

Para Kant a experiência estética está ligado ao sujeito e seu sentimento de vida. O prazer estético está relacionado à experimentar a própria vida. O lugar da graça de experimentar o mundo com todas as cores, formas e sons que ele tem. Uma predisposição de ânimo, ou seja um “sentimento de vida”; o que é estar vivo como um homem por excelência; o encantamento que nos liga à arte, à natureza, que faz a vida valer a pena (segundo Nietzche, a vida só se justifica esteticamente). Sentimento que poderia ser explicado pela frase “ que bom que eu sobrevivi para ver isto” - tomando como exemplo uma pessoa que foi torturada e sobreviveu e dá um depoimento, inesperadamente isento de ressentimentos, como “ eu gosto de viver, eu gosto de ir à praia, de vento, dos passarinhos…”. Este “sentimento de vida” seria o reconhecimento de que alguma coisa que está acontecendo não é qualquer coisa.

O comprazimento é algo que se dá através da sua imaginação, que é a faculdade formadora da forma ( em alemão Einbildungskraft ( imagem/forma/formação). Todo múltiplo sensível que toma forma em mim diz respeito à minha imaginação. É o conjunto de estímulos sensíveis que se apresentam em mim de forma unificada. A imagem que se forma em mim. Ligada ao plano sensível. A imagem que se forma também pode ser difusa, ser só no plano das sensações. Já alguns sentimentos são ligados ao racional “ eu não gosto disto que você fez”- é um comentário moral. Posso ter prazer e desprazer que não são meramente estéticos.

A experiência do belo se dá a partir da faculdade da “imaginação” do sujeito em livre jogo com seu entendimento. É da ordem do sensível junto com o reflexivo.

Kant afirma que a atestação do belo como belo (experiência sensível e intelectual ao mesmo tempo), liga-se à experiência de um prazer desinteressado ( ohne Interesse ), diferenciado de outros dois tipos de prazer, que, segundo ele, estariam ligados a interesse, que seriam o prazer ligado ao que é agradável ( experiência meramente sensível ) e aquele associado ao bom útil ou bom moral ( experiência meramente conceitual/reflexiva). “Estar interessado em algo” significa antever prazer de alguma espécie associado à existência, à posse, ao contato, à experiência ou ao acontecimento de alguma coisa.

Para Kant o comprazimento no belo é desinteressado. Só acontece se eu deixar que o múltiplo sensível de suas formas, etc…me deixe ter prazer…Não posso deixar que outros componentes daquele “troço” afetem minha experiência. Eu tenho que isolar.

A experiência desinteressada tem que se sobressair em relação à outras experiências. Causar prazer sem que você esteja interessado em ter prazer. Ser um elemento surpresa. É necessário um deixar-ser, um deixar-aparecer…a experiência da gratuidade.

A experiência do belo é meramente subjetiva, mas nós podemos pensar como partilhar, pensar em como objetivar, porque você presume que há uma objetividade no prazer que você está sentindo, você acha que o outro pode ter o mesmo prazer que você. Uma determinada experiência te dá tamanho prazer então é possível compartilhá-la. Esta seria uma das características do ajuizamento do belo.

Da Vinci disse algo como “Arte é coisa mental”, ou seja é uma experiência sensorial, mas intelectual / reflexiva ao mesmo tempo. Existem prazeres que não são puras sensações.

O sujeito poderia viver a experiência estética do “belo” ao degustar um vinho, por exemplo, poderia dizer, este é um “ belo vinho”, por sua opacidade, transparência, viscosidade… como sendo algo que cria memória… pelo sabor que fica…tornando-se uma experiência reflexiva além de sensorial. E aí você diz para outra pessoa “ toma este vinho que vai te dar prazer…”, você tem desejo de compartilhar a sua experiência, por ser uma coisa diferenciada. Ao tomar este “belo vinho” eu posso ter um prazer desinteressado, ficar apenas focado em unir as múltiplas sensações em mim, desfrutar do prazer de um determinado conjunto de notas gustativas sobre mim…é diferente de alguém que bebe um vinho com o interesse em “tomar um porre”. Cabe observar que só se pode dar a comida a chance de representar a experiência estética quando se está sem fome.

Causar é diferente de favorecer. Você pode favorecer a experiência estética, mas nunca poderá causar. A experiência de se tomar uma coca-cola ou ter vontade de ouvir tal música, porque é animada… é da ordem do “agradável”, porque eu tenho como repetir a experiência do agrado, tenho como causar a mesma sensação.

No genuíno ajuizamento de algo como belo não pode influir nenhum interesse, quer dizer que o prazer a ele ligado não pode ser obtido por nenhum apetite prévio pela presentificação do objeto. O prazer deve ser consequência gratuita de uma disponibilidade contemplativa, fruto de uma surpresa de um livre favor. Não importa por isto se a existência do objeto traz consigo coisas moralmente reprováveis ou se me traz conforto moral, não importa se ele serve para algum fim exterior, pois não o busco para consumi-lo ou sentir prazer, apenas importa aquilo que tenho diante de mim, a aparência que ao ter a chance de ser contemplada desinteressadamente me traz prazer ou desprazer.

Exemplos de juízos em torno do belo: “gostei imensamente do filme Rashomon, do Kurosawa”, “amei a vista daqui de cima da Pedra da Gávea, é linda mesma estando a cidade tomada de prédios”…

O comprazimento no agradável é ligada ao interesse, a uma apetição. A sensação pode ser boa ou ruim e o sentimento está ligado ao prazer ( na tipologia Kantiana ) ou desprazer. A sensação da cor verde, sensação de frio/calor que pode ser agradável ou não. A experiência do que é agradável é uma experiência sensível e ponto. Exemplos de juízos em torno do agradável: “gosto de comidas temperadas”, “adoro amarelo”, “aprecio melodias suaves”…

Já a experiência do que é bom, útil ou moralmente, é conceitual/reflexiva e está também ligada a algum tipo de interesse. Exemplos de juízos em torno do bom útil: “não gosto de horário de verão”, “não gosto de coisas mal feitas”, “gosto mais deste quadro porque é um Picasso, porque é mais valioso e desejado…”. Exemplos de juízos em torno do bom moral “aprovo sua honestidade”,“não gostei das suas atitudes na festa”,“não gosto deste quadro, porque seu autor era um canalha”. Existe aí também uma possível separação entre o que seria estético e o que seria ético.

A experiência do belo é como se fosse um “ponto de interrogação” que vagueia entre o reflexivo e o prazer sensorial, uma reflexividade contemplativa. Como se diante de um quadro eu ficasse tentando chegar a um conceito e justamente por não conseguir chegar a este conceito é que o objeto continua traduzindo outros mistérios, e eu fico vagando diante do que é este enigma, o quadro aparece para mim como um sentido, como uma inteligência, mas eu não consigo reduzir a um conceito. Para Georg Bracques, “em arte só uma coisa tem valor, o que não se pode explicar”. É indecifrável. Kant, no entanto, é escasso de exemplos de juízos de gosto em relação à arte, talvez ele esteja falando da experiência estética em relação à natureza. Pensando em exemplos de obras de arte contemporâneas que poderiam ser consideradas belas no sentido de tentar retomar a relação com a natureza, poderíamos citar os pára-raios no deserto de Walter De Maria ou o Spiral Jetty de Robert Smithson ou até Richard Long trazendo a natureza para dentro da galeria e compondo esculturas com as disposições das pedras no chão. Cabe lembrar também que nem toda arte é bela, pode ser sublime ou só gerar um tipo de prazer. E que o belo aqui não significa que não seja feio ou que siga qualquer forma de padronização formal. Uma carranca ou uma máscara africana pode ser considerada feia e ser bela. O que importa é a forma como a coisa se apresenta em mim. A constelação das sensações e sentimentos que se dá em mim.

Segundo Clement Greenberg ( em entrevista a Ann Hindry em 17.05.1993 ) in Clement Greenberg e o Debate Crítico, Rio de Janeiro, Funarte/Zahar,1997: pode-se olhar a arte e não ter experiência estética, como se pode ouvir música com o pensamento em outras coisa…pode-se assim simplesmente passar diante de um quadro ou escultura. Mas quando se faz o ligeiro esforço de centrar a atenção no que se tem diante de si, então se gosta ou não se gosta. O Juízo estético é isso. A Experiência intuitiva que leva a ele não é buscada. Não decidimos se vamos gostar ou deixar de gostar… não temos poder de decisão… Acontece de amigos queridos nos mostrarem uma obra de arte de que, desolados, descobrimos não gostar, ou , ao contrário, de gostarmos a contragosto de obras que uma pessoa que destestamos nos mostrou. A experiência estética é intuitiva, não tem nada a ver com lógica. Evidentemente, muitos fatores externos, não estéticos, entram em jogo. Trata-se então de trabalhar sobre si mesmo, não é tão difícil assim.”

Sobre o desejo de compartilhamento do que é belo, ele diz na mesma entrevista : “ …o gosto é para todo mundo. Ademais não comunico o meu gosto, mas o processo desencadeado por ele. Não ajo de maneira diferente por ser crítico, mas, a partir do momento em que escrevo e proponho resultados de meu gosto em escala social, busco evidentemente o assentimento. Kant fala dessa busca de assentimento na “ Crítica do Juízo”. Não digo: “ Concordem, porque sou eu que estou dizendo”, e sim: “ Olhem a arte de que estou falando e vejam se estão ou não de acordo comigo”.As palavras não bastam, é preciso olhar. Já me aconteceu de mudar de opinião, mas nunca por causa da retórica de alguém, mas porque fui rever alguma coisa após ter tomado conhecimento do juízo de alguém cujo gosto eu respeitava, que era capaz de ver (…).”

Quando algo é julgado belo o espectador tende a universalizar o seu juízo,o sujeito pretende que o outro pode usufruir do mesmo prazer que ele, mas dificilmente perderá tempo tentando convencer uma pessoa que banho morno é mais agradável que banho quente. É diferente também do que se sucede com o que é bom para a saúde, neste caso, o sujeito deseja que o outro compreenda os maleficios de determinada coisa.

Outra conclusão que Kant chega em relação à comparação entre o que é belo,bom ou agradável. Agradável significa aquilo que deleita e vale também para animais irracionais e pode se dar por uma inclinação. Beleza significa aquilo que apraz e serve somente para os homens,naturezas animais dotadas de razão e se dá através de um favor ou favorecimento. Bom é aquilo que é aprovado e vale para todo ente racional em geral e se dá por um respeito, mediante a lei da razão. Entre todos estes modos de satisfação, portanto, a do gosto pelo belo é a única satisfação desinteressada e livre. Parece que somos compelidos ao prazer ou desprazer ora pela nossa natureza animal, instintivamente, ora pela nossa natureza racional. No caso do belo, a experiência do prazer se ligaria a algo que poderíamos livremente escolher, sem contrariar necessidades animais ou racionais.

XENÓFANES DE COLÓFON


l — (...) Entre os homens merece um elogio especial aquele que, após ter bebido, puder expressar-se em nobres pensamentos sobre a virtude, tanto quanto lhe permitirem sua memória e seu coração, deixando de lado os combates dos titãs, dos gigantes e dos centauros — fábulas inventadas pelos antigos —, e as querelas dos cidadãos, pois nada dão de útil; nobre é preocupar-se sempre com os deuses.

11 — Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que para os homens é opróbrio e vergonha: roubo, adultério e fraudes recíprocas.

14 — Mas os mortais imaginam que os deuses são engendrados, têm vestimentas, voz e forma semelhantes a eles.

15 — Tivessem os bois, os cavalos e os leões mãos, e pudessem, com elas, pintar e produzir obras como os homens, os cavalos pintariam figuras de deuses semelhantes a cavalos, e os bois semelhantes a bois, cada (espécie animal) reproduzindo a sua própria forma.

GÓRGIAS DE LEONTINI

Elogio de Helena

“O discurso é um tirano muito poderoso; esse elemento material de pequenez extrema e totalmente invisível leva à plenitude as obras divinas: pois a palavra pode fazer cessar o medo, dissipar a tristeza, excitar a alegria, aumentar a piedade. Como? Eu lhes mostrarei. É pela opinião dos espectadores que será preciso mostrá-lo. Eu considero que toda poesia nada mais é do que um discurso marcado pela métrica; esta é minha definição. Por ela, os espectadores são invadidos pelo arrepio do medo, ou penetrados por essa piedade que arranca lágrimas, ou por aquele arrependimento que desperta a dor, quando são evocadas as desgraças que os outros conhecem em suas empreitadas; o discurso provoca na alma uma afecção que lhe é própria.” (...) “Existe uma analogia entre a potência do discurso no que concerne à alma e a prescrição dos remédios no que concerne à natureza dos corpos.”

Plutarco, frag. XXIII:

“A tragédia florescia e era celebrada: era uma recitação e um espetáculo admirável para as pessoas daquela época que, como dizia Górgias, dava aos mitos e aos acontecimentos o poder de enganar, e onde aquele que conseguia iludir era mais justo do que aquele não conseguia, e aquele que aceitava a ilusão mais sábio do que aquele que não a aceitava.”

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Atéia científica

Dificuldade de pensar a história apenas como história,"o fato é este",tento,também com dificuldade, filosofar sobre as suposições históricas.Desconfio de tudo.Começo desconfiando como um único autor deu origem a todo pensamento ocidental. É quase como pensar que Homero é o Deus do pensamento e antes de Homero o homem teria sido o quê?Dificuldade de imaginar Homero sentado,escrevendo, ou só narrando. Homero antes de escrever ou quem escreveu Homero pela primeira vez?Com a criaçao do alfabeto,foram escritas Ilíada e Odisséia,mas antes era falada. Pega-se uma criação popular e diz-se que tal pessoa a criou.Com que provas?
Se existe ateísmo religioso,me sinto atéia científica,'as vezes não acredito em nada que vem da lógica racional,tudo me parece suposição,delírio e portanto arte também.Tudo no mundo me parece artístico.Toda e qualquer criação humana me parece artística e como "boa espectadora" vou me deixando enganar...

domingo, dezembro 18, 2011

Pensamentos em torno da idéia nietzscheana de AMOR FATI



Sim! Eu sei muito bem de onde venho!
Insaciável como a chama no lenho
Eu me inflamo e me consumo.
Tudo que eu toco vira luz,
Tudo que eu deixo, carvão e fumo.
Chama eu sou,sem dúvida.
Ecce Homo
( o poema )
(que depois virou espécie de livro “auto-biográfico” de Nietzsche)

“ Nesse dia perfeito, em que tudo amadurece e não apenas a uva se torna escura, caiu sobre a minha vida um olhar do sol: eu olhei para trás, eu olhei para frente e jamais vi tantas e tão boas coisas de uma só vez.” Assim Nietzsche começa seu Ecce Homo, livro em que o termo Amor Fati é mais citado por ele. Olhar para frente…se for para olhar para trás que seja de forma saudável, sem ressentimentos, de forma que o indivíduo seja digno aos acontecimentos de sua vida, de forma que honre as suas próprias escolhas e assuma os fatos de sua vida como escolhas individuais e não fatos isolados causados por outros fatos ou por outras pessoas ou deuses. Amor Fati, ele diz. Em Gaia Ciência, livro IV, parágrafo 276, ele escreve “(…) Quero cada vez mais aprender como belo aquilo que é necessário nas coisas: - assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor Fati ( amor ao destino ): seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer Guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!”.
Fati provavelmente vem da palavra Fate / Fado / Destino. Poderia ser uma idéia de amor ao destino.“Destino” significa: está escrito. Mas que destino é este a que Nietzsche se refere? O destino que é decidido pelo acaso? O destino que temos em nossas próprias mãos? Nietzsche não acreditava no destino controlado por algo maior que nós, acreditava que tudo dependia da escolha individual do ser humano. Baseava sua filosofia no “agir humano”.
Será que poderíamos então adequar o termo destino ao termo “kharma”? Kharma implica uma idéia de causa e efeito, com alguma importância dada às escolhas individuais, numa encarnação. Para a fórmula indiana, o homem planta a semente e não presta atenção ao seu crescimento. Ela brota e eventualmente se desgarra e cada indivíduo tem que comer da fruta de sua própria terra. Esta é a lei do “kharma”, escreve Liz Greene no livro “The Astrology of Fate”. “Destino” por outro lado, parece ser, na concepcão popular, aleatório e o indivíduo não possue escolha alguma. Mas esta nunca foi a concepção de destino na concepção filosófica, nem para os olhos dos estóicos, que eram, como o próprio nome sugere, excessivamente estóicos sobre a falta de liberdade no cosmos. O estoicismo também entendia o destino como um princípio de causa e efeito; ela meramente postulava que os humanos são geralmente cegos e burros demais para ver os resultados implícitos nas suas próprias ações. Mas os resultados não deixavam de estar nas suas próprias ações.
A idéia estóica de destino é completamente diferente também da idéia de moira (destino) na tragédia grega. No teatro esquiliano, por exemplo, o coletivo sempre supera o individual. A filosofia básica do teatro de Ésquilo é a moira. ( “Teatro grego - tragédia e comédia”).A moira, a fatalidade cega, esmaga o homem, mas esse mesmo homem tem uma parcela grande de responsabilidade em sua própria tragédia, uma vez que ultrapassou o métron, o antrophos, o homem, em Ésquilo, tem que estar condicionado por sua condição humana. Afinal antrophos é homo e homo é humus, terra, barro, argila. Ser humilis, humilde, com a cabeça voltada para a terra é próprio da condição humana. Como disse H. D. F. Kitto (A tragédia grega)“As forças gregas são os raios da justiça divina, não havendo lugar para nomes individuais”.
Apesar de também considerar o “homem como tendo sua origem no humus”, Nietzsche dizia que a “ humildade é (boa) para os vermes”. Em Humano demasiado humano, Nietzsche chegaria a corrigir o evangelista Lucas, que dissera no capítulo 18, versículo 14, de seu evangelho: “quem rebaixa os outros, quer elevar a si mesmo”. Nietzsche alega que melhorou a sentença biblíca com a sua versão, rematadamente irônica e nitidamente realista: “quem rebaixa a si mesmo, quer ser elevado”.
Mas voltando ao Amor Fati. A idéia de Amor Fati para Nietzsche seria mais próximo da idéia de ataraxia, um termo grego que foi introduzido por Demócrito (c. 460-370 a.C.) e significa tranquilidade da alma, ausência de perturbação e era utilizado sobretudo pelos epicuristas e pelos estóicos. Os estóicos identificam a ataraxia com a apatia, isto é, a serenidade intelectual, o domínio de si, o estado da alma que se tornou estranha às desordens das paixões e insensível à dor, rejeitando a procura da felicidade; já que as "coisas" não podem ser de outro modo, o mais sensato é acomodarmo-nos. Os céticos e os epicuristas procuram o mesmo através da ataraxia, atitude que, sem renunciar à amizade, à compaixão, ao prazer ou à dor, não permite a perda do equilíbrio espiritual.
O estoicismo é uma doutrina filosófica criada por Zenão de Cício no século III, em Atenas, que desenvolve as idéias do pré-socrático Heráclito e defende o autodomínio e a indiferença perante os males físicos e morais e também a força de caráter perante as adversidades. O estoicismo propõe viver de acordo com a lei racional da natureza e aconselha a indiferença (apathea) em relação a tudo que é externo ao ser. O homem sábio obedece à lei natural reconhecendo-se como uma peça na grande ordem e propósito do universo, devendo assim manter a serenidade perante as tragédias e coisas boas.
O estoicismo considerava que a ética e as questões morais, ou seja "a arte de bem viver", eram mais importantes do que as questões teóricas. No entanto, esse "bem viver" dos estóicos não é uma busca insaciável de prazer. Para o estóico, enquanto o animal é guiado pelo instinto; o homem é guiado pela razão. O mundo que a razão apresenta ao homem é a Natureza e não existe nada superior a ela. Deus, portanto, não está fora do Natureza mas impregnado nela. Uma vez que a Natureza é governada pela razão divina, tudo tem um motivo para ser e nós não podemos mudar isso. Por conseguinte, nossa atitude diante das adversidades e da própria morte deve ser de serena resignação. Assim, o ideal do estoicismo é atingir a apatia, ou seja, a indiferença em relação a todas as emoções. Na prática signifca que o homem deve aceitar e suportar tudo de mal que lhe acontece, sem querer mudar as coisas ou as outras pessoas.
O termo ataraxia confunde-se e está muito próxima da apatia proposta pelos estóicos, na medida em que ambas caracterizam estados anímicos que contribuem para o alcance da felicidade através da disciplina da vontade para moderar os desejos e para aprender a aceitar os males voluntariamente. Ambas promovem a liberdade face às paixões, aos desejos, às coações, às circunstâncias e, mesmo, ao destino. Distingue-se da apatia pela forma como promove a felicidade. Enquanto a apatia procura eliminar as paixões e desejos, a ataraxia tenta criar forças anímicas para enfrentar a dor e as adversidades. É um conceito fundamental da filosofia epicurista e dos céticos, e pode traduzir-se como imperturbabilidade, ausência de inquietação ou serenidade do espírito. Ataraxia é portanto a disposição do espírito que busca o equilíbrio emocional mediante a diminuição da intensidade das paixões e dos desejos e o fortalecimento das alma face às adversidades, implica saber aceitar as situações e conviver com elas, ponderando o sentido e a utilidade dos prazeres e do que possivelmente magoa.
Ele deixa claro que se libertou dos ressentimentos, graças em grande parte à sua longa enfermidade. Pois quando se está fraco, doente, ele escreve “ a gente não consegue mais dar conta de nada, a não consegue mais evitar nada – tudo machuca (…) E nada é capaz de nos haurir de modo mais rápido do que as emoções da mágoa. O desgosto, a suscetibilidade doentia, a impotência para a vingança, o desejo, a sede de vingança, o ato de mexer nos venenos da alma em todos os sentidos – por certo é , para os esgotados, a pior maneira de reagir: um consumo rápido da força nervosa, uma elevação doentia de despejos nefastos, por exemplo, a bílis no estômago, são condicionados por essas coisas.A mágoa, o ressentimento é o proibido em di para os enfermos(…)”. Aí ele cita Buda, como um psicólogo profundo, cuja “religião” não se misturou com coisas dignas de pena como o cristianismo. No princípio dos ensinamentos de Buda está “ Não é através da hostilidade que se põe fim à hostilidade, é através da amizade que se põe fim à hostilidade”. E diz que assim não fala a moral, mas a psicologia. Ele defende sua certeza instintiva na práxis. Como curar feridas senão com o tempo. Ou simplesmente utilizar-se do tempo de cicatrização. Ele lembra a passagem do Rig Veda. “Há tantas auroras que ainda não brilharam” e escreve: “eu mesmo me tomei pela mão, eu mesmo voltei a me tornar são”. (…) eu fiz de minha vontade para a saúde, para a vida, a minha filosofia… os anos em que deixei de ser pessimista: o instinto do auto-reestabelecimento me proibiu uma fiosofia da miséria e do desânimo…
Nietzsche desenvolve o termo ataraxia, no sentido de que ele não é nem cego, nem burro para negar o que poderia “o enfraquecer”. É o que a análise freudiana defende: olhe, veja, analise… não negue, afirme. Nietzsche defende a idéia de: “ame os acontecimentos da sua vida” ou “seja digno aos acontecimentos da sua vida” ou “não tenha ressentimentos” ou “as coisas acontecem na sua vida, porque você as escolheu desta maneira”. “Não ressentir” neste caso, não significa “não ver”, mas “ver”, analisar e transformar em força para continuar. “Pois o fogo reside nas transformações”, como afirmou Heráclito.
Talvez seja o caso de assumir os misteriosos eventos sem importância, os acontecimentos, as escolhas… como constituintes do sujeito. Constituir-se como sujeito, no sentido até de olhar para o “trauma”, que só se configura como trauma “depois que já passou” e “só depois” é possível se afastar para poder “ver”, rever, transformar e encontrar aquilo de outra forma. Sim, aconteceu.Olho, tranformo isto em força, sigo adiante. Como virar a página de um livro, depois de feita a leitura…
“Engano (a crença no ideal própria do cristianismo) não é cegueira, engano é covardia…Toda a conquista, todo o passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza em relação a si mesmo…eu não refuto os ideais, eu apenas visto luvas diante dele… Nitimur in vetitum” (nós buscamos o proibido” referência à famosa frase do poeta latino Ovídio autor de “ A arte de amar”). Nietzsche tinha necessidade de solidão, de, segundo suas próprias palavras “retorno a si mesmo, de ar livre, leve e solto…” dizia que todo o seu Zaratustra era um ditirambo à solidão… Ele prezava a auto-reflexão, a auto-superação, o ato de “fechar os olhos, para conseguir olhar para dentro de si e a partir daí, “ver” e “honrar”.
James Joyce escreve em seus Ulisses “ (…) fecha os olhos e vê (…)” trecho que Georges Didi-Huberman em O que vemos e o que nos olha comenta: “devemos fechar os olhos para ver quando o ato de ver nos remete, nos abre a um vazio que nos olha, nos concerne e, em certo sentido, nos constitui”. Que espécie de vazio seria este? A morte? O destino certo de todos nós? O que não se encontra explicação? Didi-Huberman completa: “Usemos a figura de linguagem do “mar”, um mar parado à sua frente, como um muro horizontal ameaçador e sorrateiro, uma superfície que só é plana para dissimular e ao mesmo tempo indicar a profundeza que a habita, que a move, qual um ventre materno, carregado de todas as gravidezes e todas as mortes por vir”.
Fechar os olhos para ver o vazio, para encarar o “inevitável”. Encarar a profundeza de todas as mortes por vir. A noção de que o tempo do homem é finito. O “encarar a morte” e não perder tempo com lamentações. Assumir na própria vida a idéia de morte, de vazio. A morte não é indigna, mas necessária. “Ame o necessário”, “ame até mesmo a morte”, “ame o destino”. Para Nietzche o homem aspira à imortalidade, mas isso não significa – nem importa – nada, já que a realidade se repete a si mesma num devir renitente, que constitui o eterno retorno. “O homem só se salva pela aceitação da finitude, pois assim se converte em dono do seu destino, se liberta do desespero para afirmar-se no gozo e na dor de existir” (Ecce homo).
Como conviver com o vazio? Como incluir as perdas na vida? Ou até mesmo na criação artística, como “preencher uma obra de arte de vazio”, potencializando a sua “beleza”? Talvez eu esteja interessada neste assunto, para tentar entender como se lida com as perdas, ou como se lida com a morte, ou por um desejo de compreensão da barbárie, do lugar do “mal” no mundo ou por um desejo de aprender a conviver com o thauma (espanto e maravilhamento ao mesmo tempo ). Ou até por saber que a presença do vazio,da idéia de morte na obra de arte a potencializa como tal. Uma filosofia de vida,que,a meu ver, intensifica o artista como artista. Amor Fati, seja digno dos seus acontecimentos, não seja vítima, tenha amor aos acontecimentos de sua vida “o que me mata, me fortalece”.
Ainda sobre a questão do “olhar”, segundo Nietzsche, perde-se muito facilmente o olhar correto para aquilo que a gente fez quando o desfecho é ruim: um sentimento de culpa lhe parece uma espécie de “olhar maldoso”. Para ele “Deus”,”imortalidade da alma”,”salvação” são conceitos que não merecem sua atenção. Diz que “Deus é uma resposta esbofeteada e grosseira, uma indelicadeza contra nós,os pensadores(…)”, ele entende por “Deus” uma proibição ao pensamento. Para ele interessa mais uma questão de nutrição que ele formula assim: “ como é que deves te alimentar a fim de alcançares teu máximo de forças, em virtù, segundo o conceito renascentista, ou seja, virtude livre de moralina” ( moralina é um neologismo irônico criado por Nietzsche ). Ele critica a moral: “ eu sou um aprendiz do filósofo Dioniso, e faço gosto antes em ser um sátiro, do que um santo”.
Por outro lado, podemos sim culpar e xingar a mesa, ao bater a canela da perna… podemos ensinar isto à criança, “ai ai ai, mesa feia!”, a gente diz para fazer a criança parar de chorar, a gente exime a criança daquela dor, joga a consequência daquele ato na mesa. Mas a mesa estava ali, a pessoa que veio em direção à mesa, a pessoa que escolheu passar por ali. Desde pequenos somos acostumados a colocar a culpa de nossas dores exteriores à nós mesmos. E podemos com esta idéia estar nos esquivando da terrível e maravilhosa tarefa que é viver e ser responsável por seus próprios atos. Viver se lamentando, colocando a culpa nos outros, nos ressentindo do não conquistado, da crítica, do não convite, da idéia repugnante do outro, viver da negação pode ser também escolher a própria morte em vida.
A culpa é uma invenção cristã. Nietzche fala das metamorfoses do espírito do homem em Zaratustra: foi primeiramente camelo, que carrega peso e anda no deserto - a figura da culpa, dos velhos valores, dos espíritos de peso…Depois passa a ser leão, o leão que se rebela… E a criança que tem a leveza e a liberdade de criar novos valores. A criança diz “sim” a si mesmo, na “Genealogia da Moral” ele fala desta forma de existência que reconhece na sua força o seu próprio existir, a sua identidade. A inocência do Devir, o mundo não é culpado de nada, o mundo é indiferente ao homem, não tem consciência do homem, o mundo segue sua trajetória.
Mas como ter amor fati a um fato inexplicável que tenha feita mal a todo um povo,por exemplo? Onde se situaria o arrependimento de um soldado nazista, por exemplo? Ou como querer que um judeu “ame ou honre” o que aconteceu na segunda guerra e ainda chamar isto de “holocausto”, uma palavra cuja significação é “sacrifício”? Como entender o mal como escolha pessoal? Como conviver com isto? Ou onde entra isto no mundo? Como aplicar o amor fati nestes casos?
Nietzsche fala de embate de forças. Para ele as forças do mundo estão em combate. Só existe força. As forças coexistem. O mundo é um monstro de forças e é da natureza da força ter uma ação repulsiva. Toda força para ser concebida como tal tem que estar em relação com outras forças. Toda relação de poder é relacional. “A força é um efetivar-se”, não é um conceito abstrato, é efetivo e como efetividade é ação. É uma idéia plural, anti-metafísica. Não é antagonismo é coexistência. É a unidade da multiplicidade de forças. Forças sociais que nos atravessam, às vezes de maneira perversa, às vezes de maneira saudável. Forças responsáveis pela manutenção de poder e para Nietzsche poder é relação de forças.
O embate de forças antagônicas que acabam por gerar a vontade de potência, que é a força para pulsar na vida, para agir e a partir daí ser um “forte”, um “homem nobre”. A força antagônica faz a sua força mais poderosa. Amor Fati neste sentido de não se lamentar, de não se vitimizar, mas assumir a potência da força contrária à sua e, a partir daí, trabalhar com uma potência equivalente ou maior.
Nietzche chega a citar duras críticas de sua obra que lhe serviram como força para criar um antagonismo. Como se o inimigo ou a força oposta fosse necessária para que a resposta tivesse o mesmo valor.
E o que ele chama de vontade de poder ou vontade de potência - wille zur macht - é a vontade em direção a potência é o impulso em direção à força. E para ele ser é devir, ser é vontade de potência. “Imprimir no devir o caráter do ser – esta a suprema vontade de potência” ( fragmentos póstumos ). Ele fala em dizer “sim”, em “afirmar”. O amor fati é esta afirmação, esta vontade de potência . Querer mais potência a partir da potência que se tem. A graça não é ter mais poder, mas sim viver no limite da vontade de potência de cada um. Afirmar, querer a ponto de querer de novo a repetição eterna daquela ação com todas as consequências dela, para além do bem e do mal, ele diz. Questão do eterno retorno: se num momento de maxima solidão o daimon chegasse e falasse para você que tudo o que você viveu aconteceria de novo. “Haja de modo a querer que esta ação retorne ad infinitum (Gaia Ciência). Apenas assim a vida é suportável, leve o seu querer até as últimas consequências… Saber que a força de cada ação é definitiva na conduta de sua vida.
Deleuze comenta “O eterno retorno dá a vontade uma regra tão rigorosa quanto a regra kantiana”, ou seja, a afirmação da vontade em Nietzsche é uma regra tão rígida quanto o imperativo categórico do Kant, que diz, “Aja de tal forma que a máxima de sua ação possa se tornar uma lei universal”. Nietzsche diz que mesmo aquele que tem a mais terrível visão da realidade, que pensou o pensamento mais abismal, pode ser leve e desprendido, não encontrando nesse fado do peso qualquer objeção à existência , nem mesmo contra seu eterno retorno – mas vê nele, muito antes, um motivo para ser, ele mesmo, o sim eterno a todas as coisas, “ o monstruoso e ilimitado dizer-sim e amém”.”
A palavra daimon se originou com os gregos na Antiguidade. O nome em latim é dæmon, que veio a dar o vocábulo em português demônio. São intermediários entre os deuses e os homens. Um mesmo daimon pode apresentar-se "bom" ou "mau" conforme as circunstâncias do relacionamento que estabelece com aquele ou aquilo que está sujeito à sua influência. No plano teleológico, os gregos falavam de eudaimons (eu significando "bom", "favorável") e kakodaimons (kakos significando "mau"). Por isso, a palavra grega que designa o fenômeno da felicidade é Eudaimonia. Ser feliz para os gregos é viver sob a influência de um bom daimon.
Porém, talvez seja na angeologia iraniana que a representação do bem e do mal encontra a sua formulação mais reveladora. Segundo esta doutrina, um anjo chamado Daena, que tem a forma de uma jovem muito bela, preside ao nascimento de cada ser humano. Este anjo não permanece imutável ao longo da nossa vida, como sucede no retrato de Dorian Gray, vai mudando de forma de modo imperceptível com cada um dos nossos pensamentos, palavras e ações. No momento da morte, a alma vê a sua Daena que vem buscá-la, transfigurada, consoante o comportamento da sua vida, numa jovem ainda mais bela ou num horrível demônio que diz: “Eu sou a tua Daena, aquela a que os teus pensamentos, as tuas palavras e os teus atos deram forma”.
Esta explicação sobre a Daena é dada por Giorgio Agamben, em seu livro Profanações. E como exercício de pensamento me deu vontade de fazer um paralelo destas idéias com a filosofia de vida do Nietzche. O estudo pode e deve ser mais aprofundado num outro momento, mas como “leiga” no assunto, humildemente coloco aqui as informações lado a lado, a fim de encontrar ponto de associação entre as idéias. Como Nietzsche coloca todo tipo de oposição em coexistência, me deu vontade de pensar a coexistência do bem e do mal e entender como estas forças nos atravessam ao longo da vida.
Ainda segundo Agamben,“Os latinos chamavam Genius ao deus a que todo homem é confiado sub a tutela na hora do nascimento. A etimologia é mais visível na língua italiana na aproximação entre gênio e generare. Que Genius, portanto, tem a ver com gerar e pelo fato de o objeto por excelência “genial” ter sido, para os latinos, a cama: genialis lectus, porque nela se realiza o ato de geração. E sagrado para Genius era o dia do nascimento, motivo pelo qual ainda o denominamos ganetlíaco” ou porque comemoramos o nosso aniversário, a celebração do nosso Genius. Todos fazemos, em alguma medida, um pacto com Genius, com aquilo que em nós não nos pertence.” e “ (…) genial é, sobretudo, a força que move o sangue em nossas veias ou nos faz cair em sono profundo, a desconhecida potência que, em nosso corpo, regula e distribui tão suavemente a tibieza e dissolve ou contrai as fibras dos nossos músculos. ..”
Amor Fati é a filosofia de Dioniso. “O dizer-sim à vida, até mesmo em seus problemas mais estranhos e mais duros, a contade para a vida, que se alegra coma própria inesgotabilidade até mesmo no sacrifício de seus mais altos tipo – foi isso que eu chamei de dionisíaco, foi isso que eu entendi como ponto para o poeta trágico(…)”
É preciso cultivar o caos dentro de nós, cultivar a força interna que existe dentro de nós. Fechar os olhos e encarar este caos. Respirar e agir sobre o vazio. Para se viver e para se criar.
Nietzsche afirma que a arte é a expressão mais intensa da vida. A Arte é o lugar do paradoxo por excelência. Arte é verdade e mentira ao mesmo tempo. Arte é a capacidade de tornar visível o invisível, pois a Physis ama esconder-se e pelas mãos do homem pode se deixar vir à luz algo novo… Arte, utilizando-se o termo heideggeriano, é o desvelamento do ser.
A questão do Amor Fati é a afirmação da vontade, é a consciência do seu querer em grau máximo, é a efetivação das suas escolhas. E o artista lida com escolhas o tempo todo. A primeira escolha é “ ser artista”, escolha esta que tem a ver com talento, mas mais ainda com vocação, porque o artista não procura provar nada, não está em busca da “resposta certa”, mas sim da melhor maneira a ser feita a coisa por ele mesmo. Para se aprimorar no que faz, ele estuda a técnica, pratica, realiza, segue trabalhando, escolhendo que materiais usar, que forma chegar, o que expressar, quando parar, o que almejar, onde colocar, o que juntar, porque fazer e mais infinitas escolhas… O quanto é possível controlar o acaso na criação de uma obra e o quanto é melhor deixar fluir… O que importa é deixar vigorar o caos é aceitar a coexistência das forças.

"tô com medo...""medo de quê?"

Levanta a cabeça. Se olha. E se eu morrer amanhã?De susto,de bala ou vício. De bala,de bala, de bala...um medo tão grande da loucura humana,uma falta de discernimento total entre o que é dedução e o que é imaginação.Porque me imagino morrendo todos os dias.Tenho medo todos os dias.Hoje,isto é hoje.No passado eu não tinha medo de nada,só de dor de amor mesmo.E foi pela dor de amor que eu passei a ter medo de tudo.não.Foi trauma.É pânico.Martelam lá fora,martelam de madrugada.eles têm autorização da prefeitura. A cidade está em obras. A cidade está na moda.Eu não.Só com a minha filha.Ela me vê e me beija.Ela aprendeu a beijar.Ela diz “eu tô com medo”,porque ela aprendeu numa historinha que a aranha era solitária,porque todos tinham medo dela,mas no final da história a aranha convida todos para uma festa na teia dela e ninguém mais fica com medo dela.Eu busco,"escaravalho",rascunho meus medos,desafio meus medos e quase morro de susto todos os dias...Vício?Só o álcool,mas já passou.Bala,se vier na minha direção,espero não ficar apática vendo a morte chegar.Se chegar,que eu vá com óbolos para pagar ao caronte,para fazer a travessia...que a minha alma viva mais um pouco...
Voltando.Começar voltando.Eu,o meu quarto branco.Uma cama,uma escrivaninha.Nem computador eu tinha. Pouca gente tinha.Eu, a minha cama, a escrivaninha,a cadeira,o armário. Eu e as coisas que eu tinha para fazer. E a minha família e os meus amigos. Leveza. Eu, a terra batida sob meus pés, a parte de baixo do biquíni,só. Uma bicicleta. Vento. Sal na pele. Calor. Liberdade.Amor e liberdade.Só.Não voltar de hoje até o dia do meu nascimento,ou do meu concebimento,mas ir até lá e de lá chegar até aqui,para reconhecer,para me conhecer,para resgatar algo que foi perdido pelo caminho.Nasci.
Eu,a minha mão no tapete da sala,pegando no sofá para ficar em pé,abandonada na praia embaixo de uma toalha.Pele branca,cabelos brancos. Eu nasci de cabelos brancos,quase albina,crescendo num sol de sal,num sol esturricante,branca de sal na pele,caminhava por salinas de água quente e fedor,meu pé afundava.nadava numa lagoa escura e o fundo dava medo...tinha medo de tubarão,mas na lagoa só tinha mesmo tainha.Tainha é considerado um peixe barato,um peixe fácil,a barata do mar...eu comia barata,eu cresci comendo barata...a barata do mar...quando a gente ia passear,passava por dentro de uma favela,via senhoras lavando roupa,nenéns pelados brincando no esgoto,para chegar à propriedade do Roberto Marinho,onde tinha uma praia bonita.Lá a gente podia esquiar pelado e brincar de lagoa azul...eu me imaginava a Brooke Shields beijando aquele menino embaixo d’água...lá tinham conchas ainda grudadas no seu respectivo par,conchas rosas bebê,grandes conchas rosa bebê,ainda grudadas no seu respectivo par.Tudo parecia germinar dali,o magma terrestre parecia vir dali,toda a concepção do mundo parecia vir dali,o mundo parecia ser só aquilo...o sal,o vento,a água no corpo,a areia,as conchas,uma mata abundante e uns cabritos soltos...uns bodes...o peito ainda sem a parte de cima do biquíni,o pé grosso de quem anda muito descalço...e as gaivotas que vinham dormir a noite sob às árvores da ilha e transformavam o verde da copa num imenso tapete branco,suspenso,suspenso...não imaginava ladrão,não imaginava nem a morte,mesmo convivendo com cadáveres de peixes à beira d’água...aquilo parecia tão natural,que não era questionado...ocupar-se de ações,como passar os dedos sobre alguma superfície lisa ou saltitar com as mãos num muro áspero,pedalar para atingir pequenos objetivos,subir e descer o morro.subir a ladeira carregando a bicicleta,para descer no embalo,ter medo de cair e cair,ter medo de cair e não cair,viciar.
Parece que eu pulei umas partes...
Pensei em beijo. Na paixão pelo primo. No sangue do primo, na ajuda, em ficar sozinha com ele, no topo do morro, pegar o tecido que envolvia a espuma do guidon da bicicleta para estancar o sangue dele. A vontade de beijá-lo, a bulinação na bicicleta...E depois quando a gente se reencontrou embaixo do piano e transou.
E hoje?Importa o hoje?Hoje tudo é difícil.Acordar,planejar-se,vestir a roupa,o sapato,arrumar a casa,a cabeça,comer bem,manter o otimismo,precisar,pular da cama diariamente,trabalhar,trabalhar...

quinta-feira, janeiro 20, 2011

quarta-feira, novembro 17, 2010

EU TE AMO Greta jo

melhor estar mal do fígado que ruim da cabeça ou será ao contrário?
calma,calma,calma
deixar de ser vampiro não é assim de uma noite para outra
requer muito leite no peito
muito sangue nas veias
muito amor pra dar em casa
e um melting pot de coração derretido
aqui estou a responder pelos seus berros
a abrir os olhos para qualquer gemido
aqui estou meu grande amor
pronta pra te admirar,pra te beijar e rir com você
festa de Ogum Perséfone introdutória de 10 meses de vida
E Viva a vida!

segunda-feira, maio 03, 2010

corpo doído

uma rede eletromagnética cobria o céu sobre nossas cabeças para nos proteger das rajadas da guerra no morro...estrelas juntavam-se de um lado, depois todas cambeavam para o outro,passavam juntas ligeiramente sobre nós... e ele deitado ali ao meu lado, também refém de uma criança que apontava o dedo como arma nas nossas barrigas,dizendo"eles não tem mais noção,estão danificando muito mais coisas,por um pedaço de madeira" e o japonês gordinho se jogava da janela...e a bebê chorava...
Foi só um pesadelo.

sexta-feira, maio 08, 2009

Numa outra vida

Embaixo da terra, no fundo do mar, nos encontramos novamente, você pegou minha mão e eu a sua e lá, sob as moléculas de H20, nossas caras saudáveis e inchadas, nossos cabelos flutuando, sem gravidade, lá, tirei o anel que estava em meu dedo e botei no seu...depois nossas mãos se apertaram e nos olhamos cheios de cumplicidade.
Você é um ser tubarão e eu,sereia aprisionada pra sempre em minha calda coração...
Subimos à tona e você se foi.
Eu virei mulher. Esperei em pé a próxima onda grande, que devastava tudo de concreto que existia à minha volta, mas, quando se espera, no lugar exato, nem sempre ela vem... saí andando, na cia de uma amiga...que pena... antes mesmo eu avistei o perigo, corri na frente, egoisticamente, não consegui avisar mais ninguém, furei, me salvei, mas, quando voltei pra ver o que aconteceu com quem ficou pra trás, pra ver o quanto as cambalhotas mortais tinham atingido meus amores... não encontrei mais nada, foram, passear, foram simplesmente pra outro lugar, saíram de lá... no lugar encontrei o presente, o presente que não me reconhecia mais e me veio de novo uma dor enorme,um sentimento que me devastou sempre de não saber qual meu lugar, nem quem são as pessoas que me importam e se importam comigo...O mundo assim é só e a vida uma total melancolia. Conquistei cedo pessoas que me exigiram mais do que sou e assim nunca pude me satisfazer com a simplicidade de ser, como natural gostar-se,sempre me quis além de mim, talvez por isto meus olhos sejam tão fundos.
um cérebro assim só mingua, sonha muito, mas não faz do sonho uma possibilidade. Sonho é sonho. Realidade é realidade. A minha pouco mudou e em volta de mim a hipocrisia reina. Até o mar era bom antes de você. A vida não tinha arte, só natureza e amor. E agora,desde este agora que se fez pós-você, pós decepção com os valores que me passaram,só a arte me permite viver o que o sonho me mostra... mas, fazer arte hoje em dia é tão complicado... tudo é tão técnico, tão necessário de concretude, tudo tão separado, egóico, distante da vida, que...até arte está difícil de se fazer. Talvez voltando à natureza eu encontre uma nova maneira de se viver, de se amar... talvez unindo vida, natureza e arte eu consiga não pensar tanto na morte. Quantas vezes morri depois de você...

sexta-feira, maio 01, 2009

A morte

Era uma tarde ventosa de abril...A luz lá fora brilhava em tons semi-reluzentes e o mar batia em bravas ondas,ela acordou de um sonho em que sua amiga atriz lhe perguntava se tinha feito papel de ridícula naquela situação e seu amigo fotógrafo reparava que ela estava de pijama de flanela verde-água, tinha um mistério e um certo humor no sonho...aquelas pessoas...o que elas falavam... a dor de novo... aquela dor no lado inferior esquerdo da barriga,aquela dor de novo... estava ela doente?O médico avaliando sua situação naquele momento diria que estava tudo bem, que as coisas estavam melhorando... que seu intestino já tinha passado do trauma e que agora se recuperava...levantou-se da cama, depois de se espreguiçar tal qual os gatos, fez o mesmo número de respirações que correspondiam à sua idade, trinta e seis respirações naquele sábado pra sair da cama...hoje eu vou à praia, vou nadar no mar verde de Capri, mas, ali não era Capri e o vento não estava tão convidativo,foi ao banho,então...enquanto a água do choveiro escorria pelos seus cabelos e corpo, ela olhava para o chão...comprara um novo produto anti-freaze na loja em que os travestis, putas, cabelereiros e maquiadores...costumam investir, tinha que usá-lo, mas, o hábito a levara ao velho Elseve, da L'oreal, resolveu experimentar o produto de qualquer maneira, lavar o cabelo duas vezes aproveitar e massagear um pouco as idéias...os músculos retidos, os neurônios tristes, fatigados, lúgubres dentro do cérebro... fechou os olhos e deixou a água bater na nuca, jogou a cabeça pra trás e sentiu os pingos em suas pálpebras, com a ponta dos dedos abriu novamente os olhos e viu sob os seus pés os chumaços de seu próprio cabelo...seus pés e seu cabelo caído, fazendo redemoinhos espalhados em volta dela, seu cabelo caindo.... sua cabeça tão pequena, seu cabelo, seu pé... fechou os olhos e caiu pra trás num desmaio.Era insuportável a idéia de se estar viva morrendo aos poucos.

quarta-feira, abril 29, 2009

por um triz

Enquanto eu conversava com ela, pensava que nunca havíamos tido uma relação direta, que sempre tinha alguém no meio de nós,fazendo-nos pensar isto ou aquilo... estava feliz em estar compartilhando aquela garrafa de vinho com ela, estava curtindo... ...falamos várias coisas...
... estranhas estas relações de trabalho quando somos artistas.Ninguém quer oficializar por completo nada, afinal somos artistas e no fundo queremos ser livres e temos um quê de românticos, mas, o pé no chão avisa, vai por aqui, vai por ali, agarra isto, troca mais... e de repente, entre um brinde e outro, a mulher na mesa ao lado em tom grave agarra o marido, bota os joelhos na cadeira e berra, urra:
- Não, não, não, pelo amor de Deus, não, agora não, ajuda, alguém me ajuda, alguém me ajuda...
Silêncio arrebatador no local um homem pega o telefone sem fio, outro corre pelo recinto e vai até a porta...
A mulher dá socos no coração do marido.
-Uma ambulância pelo amor de Deus!
-Alguém me ajuda!
E socos no peito do marido...
Eles tem outras pessoas sentadas na mesa comm eles, um casal jovem, filha e namorado? É isto mesmo? Ou será que era um casal de amigos?

Ela, na minha frente, tem a brilhante idéia:
- Um médico, tem algum médico aqui?
Dois homens se levantam de suas mesas e vem na direção do ...

A mulher
- ah, meu Deus do céu, graças a Deus!!! ele tá voltando...

-Doutor, os olhos dele tinham se revirado pra trás, eu nunca vi ele assim antes...

- O senhor está se sentindo melhor?

Ela fala comigo:
veja como o local fica em silêncio... e aos poucos o burburinho vai voltando...

Eu penso, ainda bem que este homem não morreu aqui agora...

Achei que nossos destinos estavam mesmo entrecruzados.
Destino? Que mania de destino?!

A situação aqui é: existe um trabalho. Você quer fazê-lo?
Quanto eu vou ganhar pra fazê-lo?
Pra fazer o que no trabalho?

E ele sobreviveu. Porque ela acordou seu coração aos socos. Porque ela não deixou que ele morresse.

Acho que vou pegar este trabalho.
Quanto mesmo?

Não sei...acho que vou pegar este trabalho...

socos no coração, seus olhos vendo de novo, toma um copo d'água.

Mas, o que meu será que eu você personagens....????????
tá bom, aguardo seu telefonema.

perdão

uma carta escrita e não entregue a um professor que falou mal da empresa criada pela minha família permanece numa caixa baú, será que ela era mais importante pra mim mesma? Será que é um erro reparável? Carta que não foi entregue. Por que eu não entreguei esta carta, que não escrevi e
?

domingo, abril 05, 2009

onda

Onda de ficção, água de mentira... você pode perder o poder de discernir entre uma onda grande e uma onda pequena, perder a noção do tamanho da onda... ter medo de qualquer forma, de qualquer 1 metrinho...achar que ela tem sempre de 5 pra cima... você pode olhar pra uma onda assim e reagir de duas formas, acreditar que pode surfar ou furar, ou não acreditar em nada e tomar na cabeça...

se a onda for de mentira, qual o tamanho do risco?

a ficção tem risco quando se percebe que é de verdade?

e a ficção da percepção tb?

a percepção das coisas se faz necessária sempre...

a verdadeira dimensionalização também.

fita métrica, relógio, calculadora

e um passarinho visitando a janela.

Queria voltar a surfar... acho que ajudava.

mas, e o tempo? o tempo das coisas? e como saber se isto é mais importante que aquilo? Agindo com inteligência, sensibilidade, maturidade, basicamente, coração e cabeça. Peito e membros.

Tristeza

abandonou tudo, deixou a geladeira esvaziar, esqueceu o nome do amor, cagou e andou, definhou, deixou o mato crescer, relaxou, engordou, foi ficando com teia de aranha, foi encurtando,desistindo, decaindo e finalmente morreu, de tristeza.

segunda-feira, março 23, 2009

Aproveitar ao máximo a estadia por aqui...
...meaning:

viver com ousadia, coragem, paciência e companheirismo.

Queria ser mais próxima de muitos, mas, as oscilações fazem parte.

segunda-feira, março 16, 2009

memória, tempo, pessoas

Fui na Espanha comprar o meu chapéu, azul e branco da cor daquele céu, olha a palma, palma, palma, olha pé, pé, pé... olha roda roda roda caranguejo peixe é...caranguejo não é peixe, caranquejo peixe é, caranguejo só é peixe, lá no fundo da maré.

Baixou a nostalgia na presença das novas gerações...
vivendo a tradição oral...
procurando lembrar pra não esquecer e perder jamais.

é preciso multiplicar os quartos de memória no hotel aqui... deve haver uma forma de vários corpos ocuparem o mesmo espaço, ao mesmo tempo...
há de se ter tempo...
e o tempo é feito por você mesmo.

mas, nem sempre...
não adianta também achar que controla o tempo,
porque o tempo comum é essencial para os encontros...

...senão as pessoas passam, as oportunidades passam, as amizades passam, as vidas passam, e ...